29 agosto 2007

A maldição da poesia


Eduardo Pitta escreveu ontem no Público admirável texto, transcrito no seu blogue, a propósito do passamento de Alberto de Lacerda. Abstenho-me, pois, de acrescentar, comentar, fazer exercícios de estilo. Morreu um poeta e com ele morre mais um fragmento da velha comunidade literária luso-brasileira, hoje em esboroamento; morreu mais um filho das terras do Moçambique português; morreu mais um português que aqui não conseguia respirar. Terra fatídica esta, que com uma mão concede aos seus maiores o estro da rainha das Letras e com outra os obriga ao exílio interior ou à distância: assim foi com Luís Vaz, Bocage, Sá Carneiro e Pessoa; assim foi com Alberto de Lacerda.
Se Lacerda fizesse parte da "cultura oficial", nesse tráfico que cuida de trocar tenças e prémios literários pela prostituição açaimada dos jograis de serviço aos canis do poder, hoje teria sido um dia de ditirâmbicas loas. Mas não, com a agravante de haver sido um dos mais proeminentes animadores da Távola Redonda, movimento que salvou a honra das letras portuguesas frente ao neo-realejo imperante do início dos anos 50. Um outro grande poeta - António Manuel Couto Viana - vive hoje recluso na Casa do Artista, e como anti-comunista de sempre e poeta de corpo inteiro, ate já foi morto em vida por Óscar Lopes numa das reedições da História da Literatura Portuguesa.



Ilha de Moçambique
Desfeitos um por um os nós sombrios,
Anulada a distancia entre o desejo
E o sonho coincidente como um beijo,
Exalei mapas que exalaram rios.
Terra secreta, continentes frios,
Ardei à luz dum sol que é rumorejo
Para lá do que eu sou, do que eu invejo
Aos elementos, aos altos navios!
Trouxe de longe o palácio sepulto,
A cobra semimorta, a bandarilha,
E esqueci poços, prossegui oculto.
Desdém que envolve por completo a quilha,
Sou bem o rei saudoso do seu vulto,
Vulto que existe infante numa ilha.

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