11 agosto 2007

Gravitas


Jantar com seis conhecidos por volta das onze da noite. Escolha demorada, reticências, dúvidas e pedidos carregados de advertências:"não quero batatas", "a carne, por favor, mal passada", "salada sem sal", "o meu sem alho e sem cebola" e um sem-número de pequenas e tirânicas exigências dirigidas ao cozinheiro. Depois, as críticas: "eu não pedi assim", "o peixe que passe pelo fogo mais uns minutos", "não pedi molho", "o vinho está demasiado frio", a "esta água está natural , traga-me fria". O rapaz que serve, extenuado por horas de trabalho, corre de um lado para o outro, afogueado. Depois, a rábula da sobremesa: "demasiado doce", "muito fria", "falta-lhe leite", "falta-lhe ovos".



Afinal, o jantar não juntou. As criaturas passaram a noite a levantar minudências, ofender gratuitamente os méritos do cozinheiro e recalcar o esforço do pequeno mouro de serviço. Não sou um sibarita nem um garfo exigente. E sabem porquê ? Passei por um PREC e por uma descolonização exemplar. Entre os 11 e os 16 anos deliciei-me com essa ambrósia dos deuses que eram as rações doadas pela caridade internacional, deliciei-me com carcaças de dois e três dias e poucas vezes trinquei um bife. Isso fez-me mais forte, mais desprendido dos comes e quase indiferente aos bebes. Por isso, rio-me desses sacos de carne que nos enchem os jornais e televisões com a discursata dos desfavorecidos, dos pobres, oprimidos e esquecidos deste mundo. Nestas circunstâncias, apetece-me largar umas frases ao gosto do sr. Gil Vicente. Ah, esqueci-me. Os meus convivas eram todos, sem excepção, "de esquerda", carregados de "preocupações sociais" e outros atavios necessários a um bom comensal. Como estou grato a Mário Soares, Almeida Santos e demais patrocinadores do meu quase selvagem desinteresse pela comida !



Piaf: Non, je ne regrette rien (1961)

Sem comentários: