16 agosto 2007

60 anos da Índia

Gandhi, hóspede de Mussolini



Após sessenta anos de independência, do mito de Gandhi - agora usurpado pela hipocrisia alter-globalização - já pouco resta. A Índia fabricada, imaginada e impulsionada pelo mahatma foi, desde o início, para lá do décor anti-ocidental, do culto pelo ruralismo e nostalgia de uma Era Dourada, uma cópia do nacionalismo europeu. Gandhi era, sobretudo, um inglês e um colonizado. As vestimentas, os jejuns, o tom predicatório de mestre, a roca de fiar e a cabra que o acompanhava eram, sabe-se hoje, adereços de um líder arguto, imperioso, teimoso e extremamente duro. Gandhi escolheu a forma europeia para alcançar o seu objectivo. Tomou um partido político, serviu-se da imprensa para melhor divulgar as suas campanhas, inventou uma identidade indiana que jamais existira, fazendo tábua-rasa das insuperáveis animosidades étnicas, linguísticas, religiosas e sociais do sub-continente e escolheu a via que melhor se coadunava com o poder colonial britânico. A desobediência civil, a não-violência e a resistência passiva que ensinou e tanto entusiasmo concitaram depois entre Luther King e Mandela escondiam, afinal, uma inspiração hoje impronunciável. Gandhi, no conteúdo que não na forma, bebeu da fonte do "nacionalismo dos pobres". E onde a foi buscar ? Aos fascismos.



A modernidade reaccionária de Gandhi, glosando a expressão de Sternhell, era, mutatis mutandis, de signo fascista. Gandhi era adepto do nada mudar, era absolutamente avesso à ideia de progresso e um tradicionalista na expressão radical do termo - não tocou no regime de castas; aliás, como pode um hindú recusar aquilo que é essência da sua concepção do mundo e da vida ? - e justificava o seu nada mudar no organicismo e solidarismo nacional indiano com a mesma convicção com que os fascismos o faziam: primeiro o Estado, depois a Nação. A cada um o seu lugar, conforme a competência - neste caso pureza - de cada. Ora o Estado Indiano - uma construção artificial - geraria uma "nação indiana" para lá do puzzle étnico e religioso. Essa uniformidade - esse gleichaltung Gandhiano - só foi ultrapassado em intensidade por um dos seus discípulos, Subhas Chandra Bose, fascinado pelo nazismo.
Fica, assim, descartado o ónus que impedia sobre Muhammad Ali Jinnah, líder da Liga Muçulmana e responsabilizado pela separação do Paquistão. Jinnah foi confrontado com a recusa de Gandhi em aceitar cláusulas especiais respeitadoras da identidade cultural dos muçulmanos e compreendeu que o "especificamente indiano" a que Gandhi com frequência aludia era, sem tirar nem por, o simples esmagamento da cultura muçulmana-indiana herdeira dos Mogóis, a única, sem dúvida, que ofereceu verdadeira resistência à colonização britânica.


Jana Gana Mana

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