11 julho 2007

A tropa do descalabro


Mau grado o degradante espectáculo de demissão que as Forças Armadas exibiram no imediato 25 da Silva - graças à cobardia, ao cómodo situacionismo e fechar de olhos, ao trepadorismo sempre de bem com todas as situações, aliado a um quase analfabetismo, características bem lusitanas - sempre pensei, ingenuamente, que a oficialagem se nutria de valores para uma ocupação que seria - idealizava eu - mais uma "vocação" que um emprego. Por lá estive cinco longos anos, entre formaturas, marchas, semanas de campo e manobras, pelo que nunca consegui atentar - como era crédulo na altura - nas beberragens, nos vícios das cartas e dos dados, na madracice e dolce-fare-niente que envolvem esse mundo quase à parte. Senti-o tardiamente, quando passei das unidades operacionais para serviços de ar-condicionado, burocracia e cadeirões. Aqueles homens, fartos e sonolentos, aqueles oficiais tardios vindos de sargentos, aqueles pequeno-burgueses fardados das 9 da manhã às 5 da tarde eram os anti-heróis de uma instituição que idolatrara. Ali pouco ou nada se fazia: jogava-se muito, bebia-se muito, discutia-se futebol, ia-se ao depósito de géneros atestar a bagageira, à bomba de gasolina para atestar o depósito e até se faziam levas de fim de semana para levar uns quantos miúdos fardados para obras e pinturas em casa do senhor capitão x, do senhor major y e do sargento-chefe z.


Desenganado, esqueci tudo isso e voltei à vida civil. Continuei a idealizar a velha estirpe dos soldados patriotas, render preito e homenagem aos raros vestígios de um tempo remoto em que os militares eram, de facto, cavalheiros dos pés à cabeça, orgulhosos das suas fardas e dos seus juramentos de fidelidade à pátria. Agora desfazem-se-me definitivamente as ilusões. Leio e já não me espanto. Os aviadores, pagos com o nosso ouro para ganharem as asas, fogem da Força Aérea para o negócio do comércio das núvens. Enganam, traem e espezinham as juras de fidelidade à pátria, deixam indefesos os céus portugueses. A fuga não envolve mecânicos, jovens cadetes ou humildes sargentos. Agora são generais, coronéis, majores pilotos-aviadores, ávidos por ordenados. Entretanto, lá vamos tendo ministros da defesa num país indefeso, comido e aviltado por dentro, da presidência ao porteiro do mais ignoto instituto; todos mobilizados pelas pulsões do estômago e do status conferido pelo dinheiro. Onde o dinheiro domina, já não há lugar para vocações, nem para o serviço do Estado nem pelo amor de Pátria. A coisa acabou. A tropa mostra, com isto, que deixou de ser reserva para o que quer que seja. A "civilização" tornou-os iguais à populaça: futebol, dinheiro e mariscadas.


Sing, Sing, Sing: Benny Goodman (1938)

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