03 julho 2007

Traição e lealdade

João de Brito catequizando os Indianos
Manuel Maria Bordalo Pinheiro (1865)

Percorria o Super Goa, que leio sempre com a maior atenção, quando fui confrontado com uma sondagem - julgo que destinada a goeses, àqueles que ficaram e àqueles que partiram - cuja expressão, se bem que numericamente irrelevante, exprime de maneira inconfundível a estupidez associada à má-fé. Ódio a Portugal, eis o resultado de um inquérito.


Sei que para tal resultado terá concorrido a insidiosa perseguição movida pelo governo da União a todos os símbolos portugueses naquela que foi a nossa jóia mais acarinhada, aquela que fizemos e refizemos com as nossas mãos e com as daqueles que connosco viveram na Roma do Oriente entre 1510 e 1961. Sei que para muitos indianos, a colonização britânica era mais vantajosa: dava combóio e telégrafo, mais negócios do algodão para as vestimentas dos cipaios, mais uns nababos que duas ou três vezes por século eram empurrados para navios da fleet e exibidos como feras amansadas nas grandes paradas e fastos de Albion. Sei que muitos indianos preferiam a chibata dos gentlemen very british, as escolas separadas, bairros separados, cultos separados e casamentos estritamente limpos de sangue, sem mulatos euro-asiáticos, sem complicações de lei, mesmo que terminasse tudo isso em metralha em Amritsar.

Mas fomos diferentes, tão diferentes que só saímos quando o Pandita Nehru - outro santarrão laico do século XX - meteu o tão reverenciado pacifismo na gaveta e,com grande valentia mandou avançar sobre Goa, Damão e Díu seis divisões de infantaria, os supersónicos e a marinha indiana contra dois mil soldados de Portugal. Saímos, mas connosco saíram trinta mil indianos - dos nossos, portugueses, leais e católicos - que deram testemunho do maior sacrifício que um homem pode pagar no altar da História: abandonar a sua terra para seguir a sua bandeira.

Esta sondagem vem a propósito. Ando embrenhado na matéria goesa, preparando investigação sobre esses quinhentos anos, quando reencontrei, fantástica na precisão, no esmero sofrido, na persistência da coragem exigida aos mineiros dos arquivos e bibliotecas empoeiradas, a obra de um grande historiador: Panduronga Pissurlencar. Pissurlencar nasceu na pobreza, condenado ao trabalho do campo, como mandava a sua casta de produtores. Mas o destino misericordioso - aqui chamado Português - retirou-o dessa corveia: deu-lhe escola, liceu e universidade - que já as havia no Estado Português da Índia, bem como bibliotecas, jornais, rádio, linhas aéreas e até orquestra sinfónica - e alcandorou-o a director dos Arquivos Gerais da Índia Portuguesa. Tivesse vivido sob o raj e teria vida regalada, absolutamente separada, se fosse bafejado por uma reencarnação querida pelos deuses; caso contrário, teria sido amanuense.

Era exímio organizador, zeloso e obstinado, gabado, até, por Charles Boxer. Com tais predicados, que associava a impressionante cultura e poliglotismo, fez grande trabalho de gabinete: compilou os Regimentos das Fortalezas da Índia, os Agentes da Diplomacia Portuguesa na Índia e os Assentos do Conselho do Estado com tal proficiência que em 1956, coisa rara ao tempo, a Universidade de Lisboa concedeu-lhe o Honoris Causa. Por detrás do homem incensado por Portugal, pelo governo-geral e pelo governo da "metrópole" havia um outro Panduronga. Havia um traidor que passava informações ao governo indiano, que enganava quem bem lhe queria. As coisas são assim. Panduronga foi traidor, mas por ele 30.000 indianos portugueses abandonaram a sua terra para não terem de viver sob uma outra bandeira.

E como o destino está cheio de surpresas - como se terão regalado os bons dos goeses no exílio - Goa foi submetida a referendo em 1963. Propunha-se-lhes que integrassem o Estado vizinho, mas o resultado foi um rotundo não, preferindo o enclave manter-se como território da União. Em 1987, finalmente, ascendia a 25º Estado indiano, sendo hoje o mais rico do sub-continente. Aqui está a prova do sucesso português. Em Goa não há, pelo menos na escala inquietante da União, conflitos étnicos e religiosos sérios. Foi esta a colonização portuguesa e o seu segredo: conquistar corações, fazer esquecer esse terrível regime de castas que foi, é e será a causa ingénita da desadaptação da Índia ao mundo moderno.

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