10 julho 2007

A televisão não mente


A maquineta encerra um poder inaudito e quase diabólico; ali não há ruga, olheira e papada que escape. Se, a acreditar nos catarpácios, há telegenia ou privação de boa-imagem televisiva, no que ao desembaraço, fluidez, bom discurso, inteligência, informação e boa educação respeita, não há pó de arroz, make-up, laca ou lápis miraculoso que impeça que sobre um mortal caia, fulminante e implacável, o juízo.


Ouvi ontem o debate dos doze apóstolos dessas boas-novas que nos vêm fustigando. Fazia zaping, pois Roma, com Voreno, Pulo e Cleópatra interessa-me mais que bairros sociais, arrumadores, túneis do Marquês e magnas matérias afins. Fiquei siderado pelo tom amador e bedutante de uns, pela crassa ignorância, português de rua e deserto mental de quase todos, mas, sobretudo, pela notória impreparação da totalidade. Como aqui dissera, confirmei duas excepções: Garcia Pereira e Telmo Correia.


Costa fez a rábula que lhe pediram. Não sendo nem tolo nem ignorante, mas tão só um oligarca, deu o redondo e o circular que competem a um homem instalado. O candidato do PSD é uma lástima; dali não sai um tiro certeiro, uma invectiva desarmante, um sarcasmo polido, um motivo para andar embarcado nesta galera. O PSD de Marques Mendes ameaça desabar, mas só não cai de vez porque ao PS interessa eternizar esse mal-entendido de trinta anos que é um partido sem ideologia, sem doutrina e sem programa. Os "independentes" Carmona e Roseta demonstraram aquilo que há muito sabia: não há espaço para independentes neste mundo condicionado e monopolizado por partidos. Carmona acabou a falar sozinho e Roseta a bichanar com Câmara Pereira, presumo que sobre Schelling ou Fichte. Uma última palavra para a direita. Manuel Monteiro parece não ter acrescentado uma molécula ao consabido "deixe que lhe diga" e ao "permita-me dizer" com que vem entretendo anos de dolorosa solidão. A Nova Democracia - que até poderia ter sido um cadinho de renovação do conservadorismo - parece-se agora, ponderados e estimados muitos daqueles que nela militam, um partido rural especializado numa desajeitada contestação dos "temas fracturantes". Acresce que Manuel Monteiro, que creio ser uma excelente e bem formada pessoa carece, definitivamente, de queda para a actividade a que consagra todo o seu irrepreensível e sofrido esforço. A direita portuguesa, se anémica em ideias, até poderia exibir a fortaleza dos fracos. Poderia ser simpática, sedutora, cativante, desempoeirada. Mas não, monopoliza o odioso, o sectário, o intolerante; em suma, faz o trabalho que dela esperam os seus críticos.


A política é um espectáculo. Os maus actores - aqueles que não possuem preparação e aqueles que não possuem o dom - não cabem no mundo da vida política hodierna. Até há trinta ou quarenta anos, dou-o de barato, a fama, a reputação e o sucesso de um político realizavam-se pelo jornalismo. Hoje, a televisão não permite retoques, cortes e pausas. Aquilo ontem foi um verdadeiro massacre. Ontem, inopinadamente, oito ou nove dos apóstolos cometeram harakiri em directo. À saída havia poças de sangue até aos tornozelos.

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