28 julho 2007

Retorno Yanomami


Como não sou optimista a respeito dos homens [e mulheres, pois agora é de bom tom marcar o género], não aceito outra "evolução" que essa soma de factos que se vai construindo por acidente, nessa cega "inteligência" das coisas a que os sociólogos chamam de factores sobre-determinantes e os historiadores de tendências históricas.


Conservador empedernido e sem mácula de sonhos transformistas, sem utopias e paraísos aquém da morte, sem pinta de revolucionário, desconfiado até à medula de engenharias sociais e antropológicas, absolutamente avesso à ideia de um Homem Novo, só temo o pior: que o homem [e a mulher] se precipitem na selvajaria.


Passeava pela Baixa, aproveitando o sol de verão, finalmente chegado, quando fui confrontado, em plena Rua Áurea, com uma nórdica já entradota e flácida, exibindo fanadas prendas com que a natureza em tempos idos a premiara. A fulana passeava-se de hot pants verdadeiramente yanomami, sandálias à Rachel Welch no One Million Years B.C e nua da cintura para cima. Ali andou a spinster mendigando uns piropos dos ciganos vendedores de relógios, varando de estupor matronas de saco de plástico, embasbacando homens de meia idade.


É isto. Para onde quer que vá uns graus abaixo dos fiordes, esbarro com estas fulanas caçadoras do Sol. Em Marocos, na Tunísia, na Tailândia, há-as a rodos calcando os costumes e hábitos locais, provocando e dando uma imagem que cola perfeitamente com a ideia diabilizadora da Europa que ali se foi formando. Muito respeitadores e pletóricos na afirmação desses mitos com que se fez a "superioridade europeia", muito direitos do homem e muito democráticos, os nórdicos, mal abandonam as suas nebulosas paragens, perdem de imediato a película e revelam o pior predador: violentos, prepotentes e ébrios, impunes pela confiança que o dinheiro lhes proporciona, dão largas ao vermezinho maligno do racismo que os habita. São as "sombras brancas". Calculo agora o que terão sofrido os colonizados às mãos dos holandeses, que não deixaram vestígio da sua passagem, mas tão só um imenso ódio.


Como nos vamos transformando em protectorado, a polícia não actua. Como nos transformámos num saguão de despejos, tudo aceitamos. Mas se a exibicionista fosse negra, ou brasileira, teria ali provocado um tumulto, "um vai para tua terra", "selvagem", "piranha" e outras graças que diariamente se ouvem. Mas não: era nórdica, europeia e rica.

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