16 julho 2007

Os resultados da direita, cabeça fria e sem paixão



A análise crua dos resultados de ontem, despida de partis-pris, preconceito e ornatos, permite-nos assinalar:
  1. O PSD cindiu-se em duas correntes. Carmona, quer queira quer não, tem ao seu lado aquela ala PPD tão reclamada por Santana Lopes (liberal-conservadora, populista, basista e patriótica) que olha com desconfiança os aboletados sem-ideologia da tecnocracia pardacenta. A Marques Mendes e à gente do aparelho - que serve tudo e todos, é Aliança Democrática e Bloco Central, Convergência Democrática ou orgulhosamente só, segundo as conveniências e o número de lugares disponíveis na política de saque e presúria a que se dedica desde os anos 80 - só resta sair antes que se repita o tremendo desastre de ontem. Lendo atentamente os resultados, somados os votos de Negrão e Carmona, o PSD teria mantido a CML, não fosse a desastrada iniciativa de Marques Mendes em retirar a confiança política a Carmona.

  2. O CDS/PP tem agora pouco tempo para escolher e acertar a melhor solução para um partido que, pesem as qualidades pessoais do seu líder, não mudou um milímetro desde a saída de Ribeiro e Castro. Votei no CDS por Telmo Correia, mas não sei, sinceramente, que outros motivos me levariam a repetir tal voto. A Paulo Portas exige-se maior acutilância e menor improvisação. Esperei, ao longo dos últimos meses, que aquela chama que se lhe reconhecia viesse ao de cima; baldadas esperanças, pois Portas parece tardar em escolher o papel que se lhe pede no "casting" da política portuguesa dominada por um PS arrogante, autista, controleiro e impune.

  3. A Nova Democracia desapareceu, não restando a Monteiro outro recurso que o de pedir uns "Estados Gerais da Direita", para os quais acudiria sem votos e sem ideias. A campanha de Monteiro foi um duplo fiasco: queimou o seu líder e andou a reboque do programa do PNR.

  4. Não comungando em nada com as preocupações, estilo e propostas do PNR, não posso deixar de concordar que teve o resultado que merecia. Estando muito longe de qualquer lugar elegível, conseguiu, contudo, chamar a si a atenção da comunicação social, desdobrou-se em iniciativas e duplicou a votação. O CDS que aprenda um pouco com o PNR a agenda da provocação. O PNR demonstrou não ser necessário nem dinheiro nem amigos na imprensa para se fazer ver e ouvir.

  5. O PPM é um caso perdido. Poderia ter um passamento digno, mudadas as circunstâncias que assistiram à sua génese e desenvolvimento, mas, ao invés, transformou-se num risível foco de anedotas, num elemento comprometedor para a ideia monárquica, felizmento muitíssimo mais larga que a meia dúzia de votos do fadismo, que rima com mariavismo, sol e touros.

A(s) Direita(s) precis(am) menos de doutrina - que está lá - e mais criatividade. Pede-se-lhe maior visibilidade, um estilo ousado, menor verbosidade e menos apego à geringonça retórica do centrão consensual. Pede-se-lhe que compreenda vivermos numa sociedade quase analfabeta, de reduzidíssima capacidade para a apreensão de subtilezas, ausência de concentração e memorização, voto habitual e um assustador desinteresse pela vida da Cidade. Para quem está de fora e de fora pretende ficar, deixaria meia dúzia de conselhos:

  1. Ao PPD do PSD para que tenha, finalmente, coragem de sair a terreiro e impugnar aquela gente incapaz, aqueles proteus e criaturas de terceira linha crescidas nos tempos de acefalia do cavaquismo e que continuam convencidas que a actividade partidária vive desligada do mercado das ideias.

  2. Ao PP e a Paulo Portas para que se definam até ao Outono. Portas que não saia agora, pois nunca mais voltará. As pessoas não aceitam consecutivos exílios, muito menos generais que abandonam as tropas após uma pequena derrota táctica. Portas é uma força da natureza, mas tem de dar ouvidos àqueles com quem trabalha ou poderia trabalhar. Governar por decreto um partido, reduzi-lo a meia dúzia de amigos e incondicionais, tem destas coisas: perderam o sentido e o pulsar da rua.

  3. A Manuel Monteiro - figura com quem simpatizo, mau grado o azedume e jeremíadas que teima em cultivar - que não nos lembre mais ter sido o líder do CDS e que faça tábua-rasa dos seus ódios de estimação. A ND perdeu anos em remoques, não tem uma ideia, uma proposta ou um assomo de positividade.

Fly me to the Moon

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