04 julho 2007

Os amigos

Junot Protegendo a Cidade de Lisboa
Domingos António de Sequeira (1808)

No ano do bicentenário das Invasões Francesas, lembrando El Rei Junot, de Raul Brandão.

Se há episódios particularmente repugnantes na vida portuguesa de Oitocentos, estes serão inevitavelmente colhidos dessa experiência traumática e aviltante da invasão e tomada de Portugal pelos mandaretes medalhados de Napoleão. Primeiro episódio: com a Família Real ao largo, uma deputação de afrancesados aguarda radiante, de avental, tricórnios emplumados, chaves da capital na mão, o "libertador" Andoche Junot. Segundo quadro: radiantes pela invasão da Grande Armée - que ia trucidando, violando, queimando, saqueando e requisitando tudo à sua passagem - uma delegação portuguesa parte para Bayona para prestar fidelidade ao Imperador-usurpador, num tal despropósito servil - requerendo protecção contra a vinda do Príncipe D. João e pedindo que o déspota nomeasse um novo rei para Portugal - que o Corso, impressionado por tamanha falta de coluna vertebral, os escorraçou como se de criados se tratasse. Terceiro episódio: a Gazeta do Porto prestou a Soult ajuda inestimável, chegando a agradecer-lhe pela repressão inaudita e morticínios perpetrados pelo "Maneta" Loison no triste episódio da Ponte das Barcas.

Este país tem destas coisas: há sempre "portugueses" prontos a servir o estrangeiro, conquanto deste recebam protecção e emolumentos. Ontem como hoje, há que servir a Europa, custe o que custar, mesmo sacrificando, exaurindo e matando o país.

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