06 julho 2007

O que me dizem os meus botões


Não sendo nem religioso nem filosofante - naquela acepção de obsidiante e sofrida busca de respostas - sou supersticioso, vergo-me perante a evidência do karma e do destino; logo, sem complexo perante positivistas e demais cérebros carrés, dedico-me à observação assistido unicamente pela intuição. E a minha intuição tem-me dito coisas espantosas nos últimos dias:


- Que o regime precisa de um bom safanão, daqueles puxões de orelhas que fazem sangue, para que acabe de vez com a ganga de medíocres, impostores e cretinos que tomaram de assalto os diversos patamares do poder, que se protegem como micróbios e vírus perante a arremetida dos antibióticos para, logo de seguida, se reproduzirem e semearem de pus e lêndeas todos os interstícios da máquina do Estado. Esse safanão poderá ocorrer nas eleições de Lisboa. Dizem-me os botões que teremos a maior abstenção da história eleitoral da III República e que Costa ficará muito longe da tão ordenada maioria;


- Que o governo, que aplaudi desde o primeiro momento na dureza e destemor que revelou, mas que se deixou dominar por toda a casta de idiotas, incontinentes verbais, mentirosos e autoritariozinhos, vai sofrer remodelação profunda já em Agosto, sob pena de não chegar ao próximo ano vivo, ou, pior, receber a maior moia eleitoral dos anais da história parlamentar portuguesa;


- Que a partir de Outubro, perante a débâcle do governo, o PSD escolherá um novo líder e Cavaco - que não se vê, que nada diz e que é, a todos os títulos, um não-presidente - será coagido a exercer as importantes reservas que a Constituição lhe concede.


Mas tudo isto são intuições. Nessa altura - para que me arrelio com insignificâncias ? - espero nem poder ler os jornais, nem ver televisão nem ouvir rádio, pois estarei por muitos anos longe deste Reino Cadaveroso que se deixou deslizar até isto. Se pudesse dar um conselho absolutamente sincero ao Primeiro-Ministro, dir-lhe-ia: "Excelência, ponha essa gente na rua, demita-os sem piedade; retome o espírito dos primeiros tempos da sua governação; diga aos portugueses que se arrepende dos ministros da Economia, da Educação e Obras Públicas que escolheu; dê ordens para que os pina-maniqueiros que falam e agem por si sejam demitidos sem hesitações; dê ordens para que nenhum peticionário, angariador de favores, potestade autárquica, traficante de influências ou procurador de lóbis interfira com a actividade do chefe do governo".
No fundo, claro, sou um ingénuo. Um Primeiro-Ministro lê os jornais e recebe ecos do que se diz à boca cheia por todo o país. Já não vivemos em 1940. Se o Primeiro-Ministro não quer agir, é com ele, mas cada vez mais me convenço da similitude entre a rota de um navio e um governo sem rumo. Se o timoneiro não corrige o erro, não será no último minuto que poderá evitar os baixios. O Primeiro Ministro sabe como o seus ministros são ridicularizados, das gargalhadas, da indignação e desprezo que as pessoas comuns lhes votam, do insuportável peso das exigências não partilhadas pelos titulares, do arrogante trepadorismo da miúdagem do PS e demais adesivos, do abanar de ombros sempre que um destes pequenos sátrapas acena com miríficos investimentos nunca realizados, do escabroso espectáculo que são as prestações dos deputados da maioria.

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