22 julho 2007

Espanha, Sardinha e outras coisas mais ou menos passadas


Os caríssimos Jansenista e Afinidades Efectivas vieram a terreiro rispostar a um texto aqui depositado há dias. Entendo-os, conhecendo-lhes os gostos, inclinações e referências, mas não posso deixar de lhes apontar uma ou outra inexatidão, que estimo consideráveis. Ao contrário do que afirma o confrade Jansenista, o comportamento dos Estados não sofre mudanças. Se atentarmos na história, as lideranças políticas atenuam, mascaram e adiam, mas sendo conjunturais e geracionais, não apagam nem invertem as determinantes que regem os objectivos permanentes que norteiam cada Estado. A Espanha não tem, pois, um Filipe II no Escorial; as Espanha não tem os tércios de outrora nem aquela elite guerreira que fez o espanto do século de ouro; a Espanha já não é hegemónica nem dirige a grande política mundial. Contudo, a Espanha - que chamou a si, coisa rara, a expressão de uma região europeia, como os EUA se apossaram da ideia de América - exprime a incompletude geográfica sempre que olha para Portugal, também hispânico, mas independente.


Para quem acompanhe o movimento editorial do país vizinho, depressa se apercebe da deliberada omissão de tudo quanto a Portugal possa respeitar. Os espanhóis, pura e simplesmente, fazem de conta que Portugal é uma pobre derivada - regional e periférica - da vida peninsular. Esta tendência tem vindo a acentuar-se, ao contrário do que afirmam os caros confrades, com a agravante de não haver em Portugal um só historiador que a queira refutar. Há anos, Fernando Bouza Álvarez - que tive a honra de conhecer - lançou um Portugal en la Monarquia Hispanica (1580-1640), excelente exercício de terraplanagem cujo conteúdo pretende, afinal, demonstrar a bondade da monarquia dual. Não compreende o insigne historiador quão gravosa foi para Portugal a união dinástica com a Espanha, as guerras e inimigos que nos trouxe, a justificação para que outros nos atacassem, nos tomassem Angola, o norte do Brasil, Malaca e o Ceilão. Afirma Álvarez que Portugal, na voz das suas elites, quis a união e que, depois, a Restauração manteve, sem tirar, todas as estruturas aqui implantadas pelo mando dos Habsburgos.


É evidente que Álvarez se engana rotundamente. Se aqui não havia sentimento autonomista - digo, independentista - por que razão todas as parcelas do território português - com excepção de Ceuta - tomaram voz pelo Duque de Bragança entre Dezembro de 1640 e Maio de 1641 ? Mais. Se Portugal se enquadrava com tamanho interesse na União de Armas de Olivares, como se justica o número insignificante de nobres portugueses nos exércitos espanhóis após 1640 ? Há anos, trabalhando no Arquivo de Évora, encontrei um documento com assinatura de D. João IV, datada de Fevereiro de 1641. O novo rei de Portugal dava instruções claras para que não se divulgassem os nomes de nobres portugueses prestando serviço nos exércitos de Espanha, explicando que tais nobres ali estariam obrigados e que, logo que as condições se proporcionassem, voltariam ao Reino para servir a Dinastia da Nação Restaurada.


Uma historiografia menor - sem documentos, apaixonada e ideologizada até à medula, sucedâneo do panfletarismo à Vinho do Porto, de Camilo, ou da História de Portugal, de Oliveira Martins - pretendeu fazer crer que a raíz de todos os males não estaria na tensão luso-castelhana, mas na intromissão divisionista da Inglaterra nas relações peninsulares, a qual teria levado ao divórcio entre Portugal e Espanha. Trata-se, sem dúvida, de um falso problema. Como dita a doutrina, a geopolítica portuguesa é marítima, a geopolítica espanhola continental. São absolutamente irreconciliáveis. A diplomacia portuguesa - no tempo em que a tínhamos - tratou sempre de procurar um termo de compromisso com a potência marítima dirigente, aliança que nos garantisse a posse do Império. Se para a Espanha o Império era uma fonte de matérias primas para a luta pela supremacia continental europeia, para Portugal o Império sempre foi a garantia para a não inclusão portuguesa nas guerras e rivalidades europeias.


Veja-se como o Iberismo brotou sempre em períodos em que Portugal recuou na fronteira marítima: após a independência do Brasil, entre 1823 e 1880, e logo após o colapso de 1975. Os adeptos do iberismo - que aqui considerei traidores, pois são-no de facto - são os bisnetos daqueles que foram prestar vassalagem ignóbil a Napoleão e netos dos animadores do republicanismo iberista da segunda metade do século XIX. Esta jogada não colheu, pelo que os Republicanos se inclinaram após 1891 para um nacionalismo exaltado, anti-britânico, logo anti-marítimo, o qual quase nos levaria à extinção pelo isolamento na comunidade internacional, apenas salvo in extremis pelo envolvimento na Primeira Guerra Mundial.


Ora, olhando para a política atlantista de Salazar, verificamos ser uma reconstrução da parceria luso-britânica (e até luso-americana), ditada pelo realismo e sem pinta de preconceito ideológico.


Sei que os fascistas (Rolão Preto) ou os Integralistas (que faziam tábua-rasa e eram, em matéria historiográfica, absolutamente ignorantes como diletantes), subscreviam um hispanismo fraterno. A Espanha não tem irmãos: tem filhos e protectorados. Portugal não é filho, logo terá de ser mais um protectorado. A culpa, no fundo, não é da Espanha, mas da ignorância de quem dirige a nossa política externa e não sabe tirar partido das vantagens que a situação geográfica trans-atlântica nos garante. O perigo do Iberismo vem de dentro e não de fora, pois o Iberismo é uma fraqueza interna perante a afirmação do poder da meseta.

Sem comentários: