01 julho 2007

Diana de Gales e o merchandising


Hoje foi o dia de Diana de Gales. Confesso nunca me ter deixado envolver pela dianomania - contemporânea mal sucedida da dinossauromania e da igualmente esquecida moda das croissanterias - pois sempre duvidei do merchandising que rodeou desde o primeiro minuto uma rapariga de boa extracção, mas a todos os títulos impreparada para a escravatura da realeza. Aquela princesa que fazia as delícias dos tablóides, das manicures, cabeleireiras e balconistas poderia ser tudo a que uma burguesa aspira, mas faltava-lhe traquejo, tarimba, vocação e inculcação de sacrifício que fazem o talante dos soberanos. A moda das "monarquias" com adamanes plebeus - que não demófilas nem democráticas - ao invés de prestar serviço, concorre para a confusão, a degradação e vulgarização de uma instituição que, não sendo democrática (nem electiva, nem conquistável pelo dinheiro), presta relevantes serviços ao Estado, à comunidade, aos homens comuns e à preservação das liberdades.


Diana foi vítima de uma popularidade que se tributa às pequenas vedetas dessa detestável rodaviva de mediocridades impantes que se chama jet-set, mas se o jet-set é o local onde se consomem as vaidades combustíveis, a realeza exige muito mais. Mais grave ainda, Diana pretendeu fazer crer que era "uma pessoa comum", quando uma princesa não é nem pode ser "uma pessoa comum", não pode namoriscar, sair com outros, telenovelizar, amuar, contrariar o papel que lhe reserva o protocolo, a expectativa e o interesse do Estado. Sinto verdadeiro horror por monarquias que julgam poder conquistar os corações e fidelidades deixando de ser monarquias. A regra institucional tem sido a de tudo exigir sem nada oferecer aos titulares.


Diana e a corte de fãs procuraram mudar as regras dessa gramática e o resultado foi catastrófico. Uma princesa pode, até, sentir amor por quem quer que seja - lembremo-nos da rainha Vitória, que depois da morte do Princípe Alberto dedicou décadas de amor ao serviçal John Brown - mas não pode confundir nem defraudar o lugar que lhe cumpre.


A recente derrapagem dos Bourbons para casamentos vão-de-escada, ao invés de consolidar a unidade e o universal reconhecimento pela utilidade da monarquia (em Espanha, dizem as sondagens, há apenas 5% de republicanos) carreia perigos desnecessários. A lógica do burguês é: "se eu tenho mérito e dinheiro e não posso ter o trono, por que razão pessoas que nunca provaram qualidades de desembaraço e inciativa recebem o trono ? Logo, sou republicano. " Os únicos republicanos que conheço são, todos, ou produto do despeito ou da ambição.


As monarquias são escola de sacrifício. Um príncipe não pode ter partido e ideologia, não pode fazer fé pública de convicções, não pode ter amigos no poder, nem inimigos, nem favoritos, nem exibir desprezo, enfado ou desinteresse por tudo e todos que integram a sociedade que serve. Um príncipe deve, até, resignar-se, calar e dissimular os seus sentimentos. Lembro o Duque de Reichstadt, filho de Napoleão e de Maria Luísa de Áustria, impedido de prestar homenagem ao seu pai, impedido de expressar solidariedade, ajuda ou mesmo interesse pelos fiéis da causa bonapartista que viveu em reclusão de convicções, pois a tal o obrigava a sua condição. Diana seguiu o caminho inverso. Quis ser uma pop-star e hoje é uma vaga lembrança, datada, do tempo dos últimos discos de vinil e dos bips. Acabou.
Stravinsky: L'Histoire du Soldat

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