24 julho 2007

Devolvam-nos aquilo que nos roubaram


O tema apaixona museólogos, arqueólogos e historiadores da arte. Da Grécia, do Egipto, da Síria, Camboja, Guatemala, Perú e México chovem abaixo-assinados e pedidos sobre o Louvre, o British Museum e o Pergamon Museum exigindo a devolução de obras de arte subtraídas por caçadores de tesouros, militares, traficantes e marchands em toda a geografia colonial e militar de Oitocentos e Novecentos. A posse de tesouros artísticos, a sua exibição e estudo exprime a independência, o orgulho e o direito à memória nacionais, pelo que o tema do património artístico e monumental constitui um adereço fundamental da política cultural dos Estados.


Neste ano em que se celebram os duzentos anos da primeira invasão francesa - foi aqui que o trono de Napoleão abriu as primeiras fissuras - importaria que o Estado português abrisse ou agendasse a discussão sobre o paradeiro de largos milhares de objectos - mobiliário, tapeçarias, pintura, ourivesaria, arte sacra, cartografia, manuscritos e impressos - que aqui foram pilhados pela soldadesca de Junot. O trabalho não exige grande esforço, pois bastará compulsar um dos centos de volumes do inventário patrimonial francês, encomendado por Malraux enquanto ministro da cultura, para saber onde está - em que museus, galerias e instituições - esse fartote de vilanagem que foi o saque desapiedado aqui praticado pelos "libertadores".


Sei que Portugal jamais o fará. Somos demasiado obedientes, submissos e temerosos para arrostar tais perigos, mas num momento em que por todo o lado se começam a desenhar políticas de permuta e serena discussão sobre o direito à posse de tesouros roubados e desaparecidos no curso acidentado da história recente - quanto tesouro se encontra escondido nos mundos subterrâneos das colecções norte-americanas, russas, francesas e britânicas - não seria por demais colocar a questão ao governo francês.
Goya eternizou esse momento terrível de violação da península pela canalha napoleónica - dizem os demógrafos que nos custou 10% de vidas - mas essa carnificida envolveu também uma mutilação tão ou mais grave que a hacatombe de 1755. Aqueles bens foram roubados, embarcados e expedidos por um Estado que usou a força para os retirar do povo e da terra em que estes haviam sido criados. Cumpre aos ofendidos e lesados o direito ao protesto e consequente pedido por depredações causadas por terceiros. Para quando a reparação por 1807 ?

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