12 julho 2007

Ainda restará força para continuar ?


O actual quebranto nacional não encontra paralelo na longa história do país. Poderão alguns discordar do pessimismo radical, outros lembrar dias funestos em que o rei acabara de morrer nas areias de Marrocos e os cofres do Estado estavam esvaziados; outros dir-me-ão que houve um momento em inícios do século XVII em as nossas armadas se viam assaltadas pela chusma de piratas ingleses, holandeses e omanitas, pilhadas as nossas feitorias, queimadas e reduzidas a pó as missões, tomados os baluartes e fortalezas do Brasil a Angola, de Moçambique à Insulíndia; outros ainda lembrarão que a crise pós Restauração atirou-nos, literalmente, para o abismo. Portugal esteve para morrer, exaurido de forças, privado de amigos e aliados - num tempo em que o Papado no açulava os mastins da missionação francesa e nos ultrajava com a Propaganda Fide - mas havia, ao contrário de hoje, duas ou três poderosas e intocadas reservas ao serviço desta nação.


  • Por aqui havia jesuítas, dominicanos e franciscanos, fidelíssimos ao Rei e a Portugal, que se deixavam matar no Ultramar pelos direitos do Padroado;

  • Por aqui havia uma nobreza de armas, valente até ao absurdo, que partia da barra do Tejo sabendo que jamais regressaria das aventuras trágico-marítimas ou que chegava esfarrapada e incógnita fugida dos terços de Filipe IV para servir o Rei do Portugal Restaurado.

  • Por aqui havia um povo cerrado, sofrido e esfomeado que dava voz pela liberdade do Rei e da Nação, que acudia com gadanhas e foices sempre que os sinos repicavam anunciando a aproximação do pirata berbere ou das incursões do castelhano.

Pergunto. Se hoje algo de verdadeiramente trágico nos acometesse, que forças e reservas poderiam esboçar essa reacção ? De tão degradados, desnacionalizados, embrutecidos - ridículos no estar; ridículos no agir; ridículos no sonhar - não haveria nesta massa inerme de pândegos telenovelizados, futebolizados, socratizados e cavaquisados um gesto, por simbólico que fosse, lembrando essa orgulhosa liberdade de outrora. Há nações em que as elites parecem não pertencer ao povo de onde saíram; aqui as elites são um aviltamento do povo. Teimo - acusem-me de lunático - que este povo, se foi e fez o que foi, merece melhor sorte que as elites que se lhe impuseram.

Waldteufel:Die Sclittschulaufer

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