19 junho 2007

Um perigo chamado Polónia


Um povo sofrido, martirizado, invadido e despedaçado, sem dúvida; uma nação repetidamente governada por estrangeiros e inscrita no rol de massacres e devastações da guerra, inquestionável. Contudo, essa é a Polónia dos últimos duzentos anos. Pelo local em que se situa, a Polónia é e foi sempre um problema: um problema para os seus vizinhos, sempre que espigou, cresceu e fez a guerra aos povos circunvizinhos; um problema na relação dos vizinhos, quando estes resolveram partilhá-la; um problema para os ocupantes, a braços com revoltas patrióticas endémicas. A "coitadificação" da Polónia é coisa recente, filha do nacionalismo e do romantismo oitocentistas, que fizeram crer tratar-se de um povo de pianistas. Não se conta, porém, a "outra Polónia": a Polónia que cresceu desmesuradamente nos séculos XVI e XVII, que dominou com mão de ferro a Ucrânia, que pôs e depôs czares na Moscóvia até meados do século XVII, que sopesou a engrenagem da diplomacia e da espada no Mitteleuropa até 1700. Esquece-se, também, que na Polónia independente dos anos 20 e 30 do século XX se praticou uma política de cruel segregação étnica, religiosa e cultural contra as minorias (alemã, judaica, ucraniana, eslovaca), se não tão brutal, pelo menos tão cínica como aquela praticada pelos nazis e tão eficaz como aquela trazida pelos tanques de Estaline.


Desde que resolveu entrar na União Europeia, tem sido um cadinho de problemas. Os polacos, fiéis de um soberanismo verdadeiramente fossilizado, encaram a Europa como um negócio de favor: querem as vantagens, os passaportes, as ajudas, os incentivos e a livre circulação de produtos [conquanto favoreçam as suas posições].Porém, recusam na União o que esta tem de inovador, de algo jamais tentado, de projecto feito de concessões recíprocas, de entendimentos. Os críticos da Europa imputam-lhe a lentidão, a burocracia, o normativismo e a extrema cautela; eventualmente, esses críticos prefeririam uma Europa à Napoleão, uma Europa onde os fracos e pequenos jamais seriam interpelados, mas submetidos, pura e simplesmente, à força dos exércitos invasores. Essa é outra história. Ora, desde que aderiu, a Polónia faz um finca-pé quase oriental na aceitação de qualquer ingerência em matérias sem as quais a Europa seria, precisamente, não a expressão da sensibilidade civilizacional do Ocidente hodierno, mas um mercado.


A parelha Kaczynski - de um reaccionarismo que faria inveja a Metternich, de um falso moralismo que tresanda a mau seminário - parece não querer recuar um milímetro. Os dois irmãos foram, como se sabe, grandes resistentes anti-comunistas, dois patriotas sofridos que muito fizeram pela erradicação das estruturas do Estado colonial-comunista. Contudo - eis a grande contradição daqueles que tanto combatem a americanização - os gémeos fazem a agenda dos EUA na Europa de Leste: são factor de indecisão, entorpecimento e desagregação da União.



Pela primeira vez dei comigo a concordar com Sócrates. Não se pode fazer clube sem cedências. Se a Polónia não quer a União, que saia. Não nos podemos dar ao luxo de, uma vez mais, hostilizar a Rússia, afastando-a da Europa, nem enervar os alemães, já cansados de tanta obstinação.

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