08 junho 2007

Um fascista cavalheiro

José Antonio Primo de Rivera ocupa lugar particular e destacado na história dos fascismos que varreram o horizonte político internacional nos anos 20 e 30 do século passado. Sublinho século passado, pois a distância e inactualidade das ideias permite confronto sereno e desapaixanado e permite comparar e relativizar, facultando ao historiador das ideias, contextualizando-os, o carácter, a acção política, o pensamento e importância do ardente tribuno no quadro histórico em que viveu. O fundador da Falange, cuja obra tem vindo a ser publicada, como lembra hoje o Pedro Guedes da Silva, foi um fascista, mas de uma variante de tal modo atípica - personalista, confessional, logo não totalitária - que dir-se-ia um tradicionalista com adamanes social-democratizantes em tempo de extremismos desvairados. Não tivesse actuado no tempo em que transcorreu a sua acidentada como trágica existência - nessa Espanha dilacerada e radicalizada pela penúria e pela indecisão ante os futuríveis - e José Antonio teria sido um líder trabalhista de inspiração cristã.



Não era, como tantos outros chefes fascistas, um desclassificado social saído do lumpen: era um aristocrata de fina educação, sólida formação cultural, amante das belas letras, frequentador de tertúlias literárias, amigo de Garcia Lorca, diletante da História de Roma, leitor atento das encíclicas dos Papas sociais. Ao contrário dos improvisadores e agitadores de rua, José Antonio deixou nos seus discursos forte marca do rigor, coerência, sistematicidade e clareza que separam o meridiano pensamento da demagogia. Como homem, a sua candura, bonomia e perspicácia, aliadas a excelente presença que cumpria os requisitos fotogénicos à Gardel nos alvores da era da imprensa ilustrada, José Antonio não inspirava nem asco nem medo como tantos outros caudilhos fascistas como Codreanu, Ante Pavelic, Hitler, Mussert e Doriot. O ódio, arquitrave de tanto extremista - ódio ao humano, ódio racial, despeito social e ressentimento, fanatismo - não se vislumbra no seus escritos. Pondo de parte obras apologéticas, como a que escreveu Ximenez de Sandoval, tentativa de o transformar num Arcanjo ardente, uma espécie de Belona cristã, meio monge, meio soldado, o retrato que do verdadeiro José António nos chegou é verdadeiramente simpático: bom conversador, sorridente, ouvinte atento, nunca se lhe ouviu um impropério ou uma sombra difamatória, manteve sempre relações de grande amizade com pessoas de outros quadrantes ideológicos e tinha sempre (a sua condição de senhorito o impunha) uma atitude benevolente (leia-se paternalista) para com os de condição social inferior à sua.



Viveu e actuou num meio violento em que o revólver, o porrete e a soqueira eram artefactos comuns nos enfrentamentos políticos. Gente sua cometeu crimes de sangue, mas num tempo em que a Passionária ameaçava de morte os deputados em plena sessão das Cortes, em que Santiago Carrillo - então presidente das Juventudes Socialistas - foi mandante e executor de um massacre como o de Paracuellos del Jarama, a violência de Rivera surge como um dado ambiental. A Espanha dessa década efervescente era um cadinho de violência - só no levantamento das Astúrias em 1934 morreram milhares às mãos da expedição punitiva do exército - pelo que o extremismo da Falange não destoa. Ao ler passagens das Obras Completas acode-me à mente o nome de Dionisio Ridruejo , também falangista e intelectual de primeiras águas cuja evolução poderá indicar - ou deixar supor - qual teria sido o percurso de José Antonio se as balas assassinas o não houvessem trespassado na flor da juventude. Afinal, o "fascismo" de Primo de Rivera não mais foi que uma impregnação datada, como os surtos de gripe que todos os anos reclamam febrões.


Carlos Gardel: Yira, Yira

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