28 junho 2007

Turquia: respeito pelo exotismo e amálgama

1. O confrade Jansenista levanta com a inteligência que se lhe conhece - mesmo quando não tem razão - objecções a respeito da argumentação aqui reunida ontem. Sou, como o disse, avesso à adesão turca por razões de natureza étnica; étnica e não racial, porquanto, como o lembrei, se a raça não existe como categoria diferenciadora, a etnia - i.e, língua, tradição religiosa, instituições, hábitos, costumes, formas de sensibilidade - continua a ser elemento demarcador de fronteiras. Há turcos tão ou mais brancos que os portugueses, as mais das vezes de tez mauritana e traços fisionómicos retintamente berberes. Para quem foi à Turquia (ou à Cabilia, ou à Síria, ao Líbano ou à Tunísia) não pode passar despercebida esta evidência: "eles" são "mais brancos" que os portugueses. Porém, os portugueses são etnicamente europeus; "eles" não.



Importa lembrar que sou admirador dos turcos - como o sou dos israelitas, dos siameses e chineses - sem que tal me obrigue a querer vê-los no mundo ocidental; pelo contrário, a Turquia , o Sião e a China que me interessam integram o exótico, o diferente, o absolutamente inacessível àquilo que convencionamos cunhar com o detestável palavrão de "mentalidade".


2. A Turquia não é o Império Otomano. Esse foi, objectivamente, inimigo, fronteira, concorrente e ameaça. A Turquia é uma decorrência daquele e do processo de ocidentalização. O pior que aconteceu ao Império Otomano foi o nacionalismo turco, copiado do nacionalismo europeu, que alienou arménios, judeus, gregos, valáquios, moldávos, transilvanos, curdos, sírios e árabes, excluindo-os, privando-os de direitos e empurrando-os para a secessão. Lembro que os "reis" da Valáquia (da Roménia actual) eram gregos do Fanar de Istambul, que o Kediva do Egipto era albanês, que janízaros e restante elite militar e política da Sublime Porta eram cristãos educados no serviço do Sultão, que os célebres dervixes turcos consumiam alcóol, que mulheres pertencentes a algumas seitas islâmicas, bem como de outras religiões estavam isentas do porte de véu, que os judeus foram os melhores administradores, financeiros, contabilistas e tesoureiros do império. Ao converter-se em Estado-nação, os turcos desenvolveram políticas de deportação, massacres e até extermínio contra minorias étnicas, aplicando severas medidas repressivas contra comunidades não turcófonas. Lembro também, por maior admiração que possamos ter por esse grande estadista que foi Kemal Mustafá, que este foi acicatador de brutais massacres perpetrados contra os cristãos ortodoxos gregos da Anatólia e arménios autocéfalos do Caúcaso.


3. O passado histórico não legitima candidatura à Europa. Os otomanos dominaram o norte de África, o Médio Oriente, o Caúcaso, a Crimeia e os Balcãs. A posse de uma região não legitima a reivindicação da história do território. Assim, o Egipto moderno não é a civilização egípcia, o Iraque moderno nada tem a ver com Assurbanípal ou Nabucodonosor, a Índia de Gandhi naõ é, decididamente, o Grão-Mogol. É verdade existir uma minoria culta, ocidentalizada e laica na Turquia, tão ou mesmo mais europeia que a nossa nativa, dada a touros, caçadas e superstições de vária índole. Mas essa minoria é duplamente minoria: é-o no conjunto da sociedade em que vive e na imagem que a europa tem da Turquia.

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