27 junho 2007

A Turquia não deve entrar, não pode entrar, não vai entrar


Anda o Turco alvoroçado com a resistência francesa à adesão do antigo império otomano à União. Ora, não se compreende a crispação. Custou-nos o Turco quatrocentos anos de guerras até que circunscrevesse o pé na Europa ao Corno de Ouro. Foram séculos de batalhas e escaramuças que mudaram o mapa étnico e religioso da Europa danubiana. A Turquia não é Europeia: não o foi sob a Sublime Porta; foi ferozmente anti-europeia sob o reformismo dos Jovens Turcos e, depois, quis seguir a via da ocidentalização técnica e administrativa à japonesa para, com essa força, restaurar a grandeza perdida. Kemal Ataturk foi um modernizador. Compreendeu que o Estado laico, nacionalista, codificador e unitário era a solução que melhor se adaptava ao reservado diagnóstico que desde finais do século XVIII se fazia ao "doente da Europa", mas tal não quis nem quer dizer que o país se tornasse europeu. Pelo contrário. Como lembra Nail Fergusson, se o Império Otomano fora multi-étnico, multi-confessional e multi-cultural, a Turquia moderna quis ser um Estado-império, desrespeitador das minorias. Não escolheu o caminho do Islão, pois não detinha o Califado e perdera o domínio sobre o Médio Oriente. Teve, fatalmente, que ser nacionalista. ATurquia, não sendo europeia senão por acidente, é, claramente, mediterrânica. É nesta condição que a Europa com ela deve trabalhar.



A questão não é a de saber se a Turquia deve ou não integrar os aliados do Ocidente, se os turcos integram a cepa europeia, posto ter sido há muito superada a categoria racial na formulação e resolução dos problemas políticos internacionais. A Turquia não é, também, um Estado "bárbaro", sendo signatária de todas as grandes cartas internacionais. Acresce que possui todos os adereços de um Estado moderno a apresenta garantias indiscutíveis para parcerias com o nosso mundo ocidental. Mas é etnicamente diferente: pelo passado, pela religião, pela sensibilidade e instituições culturais. A Europa é um clube de países de cultura cristã; iniludível, como lembrou o Papa, mesmo que Giscards e outros aventaleiros o quisessem escamotear. A recusa e resistências da União à entrada vem desmentir o lugar-comum, injusto como perverso, segundo o qual a União não passa de uma vulgar negociata de supermercado. Ao contrário do que dizia o Chevalier de Chaumont a Luís XIV, no termo da embaixada de 1685 ( "Senhor, O Sião não produz nem consome nada"), a Turquia poderia produzir muito e consumir ainda mais. A questão não é, pois, económica: é cultural. A Turquia não é europeia.

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