11 junho 2007

Tradição cesarista e plebiscitária


Sarkozy conheceu ontem o seu 18 de Brumário. É certo tê-lo obtido sem sangue derramado, por um acto de vontade geral do corpo eleitoral, por via eleitoral, a um tempo legal e legítima. Esmagou o conjunto das esquerdas imobilistas - a nostálgica da luta de classes e a nova-rica do funcionalismo estatal - acabou com o centro camaleónico do pântano de Bayrou e escreveu o epitáfio de Le Pen. Este estrondoso sucesso poderá permitir-lhe redesenhar o panorama político francês (e europeu), tanto mais que dele dele decorrem, por mimetismo, ondas sísmicas que chegaram à Bélgica, parente subsidiário da França. Na tradição histórica da fenomenologia continental, a Itália e Espanha seguir-lhe-ão as pisadas.



A França de hoje confunde-se com Sarkozy: quer Sarkozy, aceita as suas reformas dolorosas e vai apoiá-las. A atestá-lo, dos monárquicos e católicos de Villiers - que já se prestaram a votar UMP na segunda volta - aos náufragos do socialismo, um apoio compacto que não se via desde os tempos do De Gaulle de 1958, do Pétain de 1940 ou do infausto Boulanger de finais do século XIX. A herança do cesarismo - do homem providencial sem o qual, como bem lembrou Tulard, o exército não se põe em marcha, o funcionário não abre a secretaria, o maire não resolve o pequeno problema, o mercado não vende - pode garantir-lhe campo de manobra mas pode, também, impedir que a "revolução à inglesa" se instale. Os latinos precisam de líderes que se deixem adorar. A democracia latina é, pois, uma democracia de extracção sentimental e volitiva. Sarkozy corre o risco de se deixar devorar pelo meio e trocar o bem psicológico de um poder amado pela necessidade de fazer a guerra a tudo o que de negativo levou os franceses a votarem contra o sistema. Agora cabe-lhe a iniciativa: ou apostar no clientelismo, nas "quintas sociais", nos ateliers e nos subsídios, ou erigir um novo opacto de cidadania baseado na responsabilidade, no mérito e na iniciativa. Só o evoluir dos acontecimentos o dirá.


La Marseillaise: Mireille Mathieu

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