20 junho 2007

O talento confunde-se com a direita



Os caros João Gonçalves e Jansenista lembraram-no oportunamente com propriedade e respeito. É raro podermos gabar um homem que se apresenta sem disfarce como inteligente e petulante, tamanha é a inculcação da falsa humildade prevalecente entre os homens de letras. José Hermano Saraiva, filho, irmão e sobrinho de homens de cultura e inteligência ditou - não escreveu, ditou para um gravador - as suas memórias, cuja primeira década acompanha a última edição de O Sol.



Sempre tive grande admiração por este Demóstenes português. Num país sem oradores, Hermano Saraiva bate a melhor verve espanhola, a melhor oratória italiana, o mais sedutor discurso francês. É, a todos os títulos, uma brilhante, talentosa como rara excepção no cinzento português. Estou farto dos barbichas de quatro dias à Maio de 68, dos intelectuais orgânicos da esquerda aborígene, do sorrisinho pateta, da sobranceria anal desses medíocres que treparam nas sortes da Revolução, trucidaram, defenestraram, sanearam e censuraram sempre com a Santa Liberdade colada aos lábios. Odeiam José Hermano Saraiva, cobrem-no de dichotes, caricaturam-lhe o gesto largo, o verbo redondo, a pose senatorial. Porquê ? Porque têm inveja; porque este homem ensina ao povo aquilo que eles não conseguem ou não sabem ensinar; porque em cada palavra, em cada pausa, em cada olhar carrega autoridade, mesmo quando improvisa, mesmo quando facilita e pontapeteia uma cronologia. O esquerdista barbichas de quatro dias fala para meia dúzia de patetas com barbichas, perde-se na confusão e no onanismozinho do citacionismo, na exibição do títulozeco académico e nos trabalhos estéreis que ninguém jamais leu.



Tenho, também, por Hermano Saraiva, uma especial afeição pessoal. Conheci-o há mais de 25 anos - caramba, como estou velho - era eu presidente da Associação de Estudantes do Liceu Rainha D.ª Leonor. Um dia enviei-lhe uma carta, convidando-o para proferir uma conferência - chamar-lhe-ia hoje uma charla - no refeitório do liceu. No dia aprazado, perante o liceu inteiro ali falou da grandeza de Camões e das marcas desse momento glorioso em que Portugal foi potência mundial. Calcule-se o terror das senhoras que então dirigiam o liceu, todas esquerdistas militantes: um "fascista" como o Saraiva, antigo ministro do Impronunciável, falar de Camões, do Império e das grandezas e fastos de Portugal ? Depois, volvidos anos, voltei a encontrar algumas dessas poedeiras assustadas, então já todas afeitas ao cavaquismo. Muitos anos depois, enquanto comissário de uma exposição evocativa de Venceslau de Morais, pedi-lhe por telefone que dedicasse um programa aos Portugueses no Oriente. Sem pestanejar disse-me que sim, que viria. E veio. Falou com seguranças, porteiras e condutores, mais senhoras da limpeza, doutoras e doutorecas com a mesma atitude, a mesma afabilidade e graça, conquistando-lhes o coração. É um senhor dos pés à cabeça. Gosta de aplausos ? Claro. Gosta de dinheiro ? Claro, só diz o contrário quem nunca o soube ganhar de forma honesta. Gosta do espectáculo ? Claro, é um artista.



O Professor Saraiva vai fazer-nos muita falta. Quando um dia nos deixar, o país ficará decerto mais pobre, mais cinzento, mais entregue aos barbichinhas de quatro dias e sorriso idiota. O Professor Saraiva é petulante. Adoro a petulância, adoro o orgulho e o espectáculo. A direita não conhece o meio termo. Os direitistas ou são extremamente asnos - casmurros, ignorantes e odiosos - ou extremamente dotados. Aliás, atrevo-me dizer não existir grande inteligência à esquerda, com a agravante de alguma dessa auto-proclamada, pretendida ou chamada inteligência à esquerda ser, de facto, uma direita escondida ou, pior, aquela estupidez ilustrada que nos aflige e macera de suplícios nas universidades e no colunismo opinativo. Ponto final.


If (Kipling) dito por Miguel Guerrero

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