24 junho 2007

O homem que decifrou o enigma

Decididamente, ninguém poderá compreender o Ocidente sem ler Dumézil.
A realização do "milagre grego", a trifuncionalidade antropológica e social romana - que depois transitou para a sociedade cristã medieval -a impulsividade castrense do mundo germânico, o espírito aristocrático da cavalaria só se compreenderam, finalmente, quando nos demos conta da herança esquecida que a Índia védica nos legou. O encanto irresistível pela Índia, velho sortilégio, era, afinal um afecto genético. Basta compulsar o Rigveda, o Mahabharata e o Ramayana para, sem outra resistência que o preconceito recebido do colonialismo recente, nos identificarmos com as nossas referências, que julgávamos nascidas na Hélade, no Lácio ou nas florestas da Germânia.
Houve um tempo, como provou Dumézil, em que Índia, Pérsia e Europa perfaziam uma unidade: unidade cosmogónica e religiosa, unidade ética bebendo dos mesmos recitativos heróicos, unidade na representação do homem e da sociedade. Para as férias que se aproximam aqui ficam duas recomendações. Lembro ainda com emoção o impacto que tais leituras sobre mim tiveram. Anotara a Paideia de Jeagger, pusera de lado os delírios fantasistas desse prodigioso criador de universos verazes que foi Evola, bem como a Civilização Grega, de Bonnard, mas nunca compreendera o enigma desse "milagre grego"cunhado por Ernest Renan. Não, não houve "milagre" algum; os caboucos do pensamento ocidental estavam todos, pan in herbis, nas margens do Indo: na preeminência do pensamento sobre a acção, no primado da palavra sobre a espada, no reconhecimento da autoridade do conhecimento antes da submissão à autoridade de facto.Tudo o mais que se seguiu ao afundamento desse mundo foram acrescentos, com excepção, bem entendido, da revolução cristã, que não deixou de lhe tributar respeito, incorporando-lhe a ideia de conhecimento como percurso e de cultura como processo, pelas quais a nossa civilização se distingue das outras civilizações, apenas viradas para a sua circunstância.

A mudança que acometeu tantos viajantes europeus em terras da Índia (ou de culturas indianizadas) explicar-se-á, então, por esse retorno ao lar perdido. Ao que se diz nas crónicas, até o Gama entrou com respeitosa naturalidade num templo indiano, ajoelhando-se aos pés dos seus deuses em preito de veneração. Só quando nos esquecermos do "estúpido século XIX" nos libertaremos de tudo o que nos afasta desse mundo remonto onde balbuciámos as primeiras palavras e articulámos as primeiras ideias.

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