27 junho 2007

Lágrimas que o tempo não secou


Recebi de Maria - simplesmente Maria - um comovedor depoimento, igual e diferente a tantos outros milhares que se guardam ao longo de décadas. Reproduzo-o pois confirma aquilo que ontem anteontem aqui depositei.

Miguel,
Sobre este post
só posso dizer que sou mais "uma branca de segunda" e que as suas palavras fizeram correr algumas lágrimas de saudade, por um parar abrupto, por um abandonar desnorteado de Lourenço Marques.
Só viemos em Setembro de 74, mas lembro da minha mãe dizer que um dos caixotes partiu-se na viagem e como era o da loiça - partiu-se tudo. Eram tantos caixotes carregados de vida, brutalmente despejados em Lisboa, que a maioria perdeu a fé no recomeçar de uma nova vida... Lembro de alguns dias após chegar começar a ter crises fortes de otites que só pararam alguns anos mais tardes (tempo frio demais!), lembro da minha mãe dizer que eu não queria colo de ninguém/não ia para ninguém quando chegamos (da família e amigos que estavam em terras lusas) - não se retira uma criança de um meio e integra-se em outro sem existir tempo de adaptação!; lembro das conversas constantes sobre o sol, a praia, a marginal, as trovoadas, as acácias em flor, os baldes enormes de fruta que se compravam no mercado por "tuta e meia", de dormir na varanda com o meu pai por não aguentar o calor dentro de casa, da ama do meu irmão que o levava às costa para todo lado (e ele delirava!).... apesar de vir muito nova, essas recordações mantiveram-se bem vivas pelo amor que temos por África - Moçambique (minha terra) - Lourenço Marques (eu e mais uns milhares que deixamos o coração por lá).
Mas acima de tudo, lembro e sinto quase todos os dias a revolta do meu pai (militar da força aérea) contra Mário Soares, segundo as suas palavras "vendeu" a vida dos portugueses que lá estavam e de todos os Moçambicanos, que se não fosse ele teria sido uma independência consertada e possivelmente com menos mortes, miséria, abandonos, destruição registadas até aos dias de hoje.
Até podia ser o contrário, não saberemos nunca, em todo caso: Mário Soares não é bem vindo em nossa Casa (na hipotética hipótese de algum dia querer vir à nossa humilde cubata).
Depois de ler o teu texto, não conseguir deixar passar sem agradecer por este momento de partilha e emoção.
São vidas com muito sentimento, são momentos únicos que só quem passa sabe dar algum valor e que não nos deixa indiferentes, mesmo que seja só palavras ou uma simples imagem...
mais uma vez, muito obrigado.
Maria

Sem comentários: