25 junho 2007

Faz hoje 32 anos


Lisboa vivia na estúrdia loucura do suicídio colectivo. Abatera-se a indústria pesada, os bancos e seguradoras que, dizia-se, pertenciam às "tais cinco famílias que governam Portugal"; enxotara-se as multinacionais e o investimento estrangeiro; levara-se ao colapso da produção alimentar a sul do Tejo; as relações com o mundo livre estavam por um fio e estivera-se na iminência de uma intervenção espanhola por ocasião da destruição e queima do palacete da Palhavã. Nessa noite, no outro extremo do hemisfério sul, Moçambique era oferecido à Frelimo de Samora. Ao baixar o pavilhão português, entre um coro de assobios e vaias, Vasco Gonçalves e Otelo aplaudiam sorridentes.


Passaram 32 anos, três décadas de exílio. Lembro ainda, na penúria extrema de párias em que nos debatíamos, do silêncio de derrota e da desesperança que se abateu nessa noite sobre a nossa casa. Ouvi, no quarto contíguo, o choro da minha avó, a mágoa silenciosa que se colara à cara da minha mãe, a incredulidade das crianças - minha e dos meus irmãos - perante essa derrota total, irreversível e brutal. Deixáramos, num ápice, de ser moçambicanos; os brancos de África estavam, por decreto, extintos. Fiquei, desde esse dia, privado de parte da minha cidadania. Soubemos, nessa semana, por cartas lacónicas, abertas e censuradas de familiares inconscientes que por lá teimavam, que o "branco tinha de receber reeducação", que tinha de limpar as ruas, matar moscas e mosquitos nas "campanhas populares de dinamização". Soubemos, contristados, que as outrora senhoras do asfalto se haviam empacotado nas capulanas do Xipamanine, que Ariosa Pena e outros jornalistas europeus se excediam em denúncias aos colonialistas revanchistas, que as lápides e estátuas jaziam por terra nas lixeiras e escolas, avenidas, ruas e praças se haviam convertido ao novo tempo que se cantava: Mao-Tsé-Tung, Lenine, Nyerere, Jossima Machel, Lumumba e Friedrich Engels faziam a corografia de Maputo. Lourenço Marques morrera.


É curioso. Nunca em família ouvi um impropério, um reparo maldoso ou uma praga contra aquela gente que ficara refém da roda trituradora da história. Pelo contrário, ao longo dos anos sempre lembrámos amigos, colegas e empregados africanos, perguntando-nos se haviam sobrevivido à fome e aos campos de concentração, se a guerra que sobreveio, terrível e quase bíblica, deles se afastara misericordiosa. Lembrámos, tantas vezes o fiz, se os nossos gatos e cães haviam sido acolhidos por mãos piedosas, se a casa da Namaacha a outros trouxera acolhedora utilidade, se os nossos vizinhos e amigos - perdidos para sempre - haviam conseguido refazer as vidas pelas Austrálias, Brasis e África do Sul. Tudo acabou. Aquele mundo morreu e já no fim da memória quase não aflora senão em imagens remotas, quase fragmentárias, que dir-se-ia virem de uma outra vida, de uma encarnação passada.


Os anos passam, as mágoas dissipam-se e as paixões não resistem ao tempo inelutável. Há tempos, uma amiga mostrou-me uma entrevista concedida por Machel a um jornal italiano em meados de Agosto de 1974. Nessa entrevista, o guerrilheiro afirmava sem rebuço que a independência devia ser precedida por um período de transição até dez anos. Se o déspota não queria o poder, quem lho ofereceu ? A resposta surge-me hoje, límpida e crua: foi Mário Soares. Em Lusaca, Soares nem quis discutir, não exigiu nada: quis ver-se livre de Moçambique. Eu estava no pacote. Eu e milhões de outros moçambicanos, trocados por um abraço e pelo tilintar de um tchim-tchim.

1 comentário:

Manuel Marques Pinto de Rezende disse...

Relembre este texto, Miguel.
Que belo e forte testemunho.