06 junho 2007

A Expo-República 2011


Acabo de saber, de fonte fidedigna e bem relacionada nos meandros do poder, que o Estado se prepara para investir somas de Crassus nas celebrações do infausto centenário da Menina República. Exposições, catálogos, sites temáticos e outras edições electrónicas, conferências e jornadas várias encherão o ano de festividades encomendadas e pagas pelo contribuinte, agora chamado para as corveias de um acontecimento que deixou canceroso o país e ditou o cortejo de governos e regimes que atiraram Portugal para a condição em que nos encontramos.


Sei que em Portugal - para além dos aspirantes a presidente e dos eternos despeitados sociais - há mais monárquicos que republicanos; que a ética republicana é coisa para crentes; que as virtudes da república jamais alguém as conseguiu ver, tão pouco praticar; que o desfile de presidentes, fardados e paisanos, faria a inveja dos mais ousados congressos teratológicos; que a dita senhora dividiu os portugueses, levou-os nos últimos cem anos a uma guerra civil, quatro golpes de Estado, sessenta e tal governos, uma revolução marxista terceiro-mundista, uma descolonização genocida e à resultante entrada a empurrões e pontapés na Europa; que os senhores presidentes gastam quatro vezes mais dinheiro que o Rei de Espanha.


Não sei, com toda a pertinência o pergunto, que celebrações poderão ser essas, que exemplaridade se extrairá de uma república que conquistou o poder pelo revólver e pela bomba, que matou o Rei e o Príncipe Real em plena rua como quem mata um Lampião fora-da-lei, e que depois da vitória estilhaçou toda a energia em querelas, fratricídios e clamorosos erros diplomáticos. Como poderei explicar a uma criança de 12 anos que celebramos a república, se desta não saiu liberdade mas ditaturas - não uma, a tal, mas quatro - e que a fraternidade de que falavam os seus arautos se converteu na mais absoluta lei de bronze dos oligarcas, das famílias e das organizações subterrâneas que centuriam o Estado e o utilizam para enriquecimento de grupos ?


Verdi: A Força do Destino (Raina Kabaivanska)

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