15 junho 2007

Chegou o tempo dos pina-maniqueiros

Os soviéticos procediam da mesma forma: isolar, repreender e suspender funções durante tempo indeterminado até vergar os contestatários. Suspender um funcionário por 240 dias quer simplesmente dizer tirar-lhe o salário durante 8 meses, impedi-lo de manter as obrigações do pagamento da renda da casa, a conta do telefone, as compras para a despensa, o pagamento da água, do gás e da electricidade. O Professor Charrua vai contrair empéstimos a amigos - os bancos não emprestam dinheiro a proscritos - e compelido a vender tudo o que de valor tiver em casa: os livros, o computador, os electrodomésticos, uma peça, um móvel, umas libras de ouro, um terreno. É assim que se submetem as pessoas. Que eu saiba - salvo três excepções, uma delas sem motivos políticos, mas moralões - nem o Estado Novo praticou com tamanha crueldade esta política de cortes calóricos aos funcionários públicos mais rebeldes.


Há indícios claros de uma derrapagem autoritaróide sem precedentes desde os nos 30 e 40: devassa e confiscação de bibliotecas particulares, com rusgas pina-maniqueiras a residências a horas sagradas, prepotência e agressividade verbal intimidatória, muitas vezes frente a crianças, escutas telefónicas e violação de correspondência, sucessivos processos-crime por motivos políticos, cargas policiais e outras maravilhas orwellianas entre as quais, forço, se inscrevem o incentivo à denúncia, a pressão sobre júris de selecção em concursos para provisão de lugares em cargos dirigentes, o esvaziamento de funções, a mudança de serviço sem motivo aparente. Sempre disse que a um preboste não se deve dar mais que um apito e um bastão; dar-lhe mais leva a isto num país de micro-ditadores, delactores, invejosos, difamadores e medíocres.


Li a entrevista daquela senhora com carão de Valentina Tereshkova e fiquei elucidado. Daquela queixada de batateira da gleba não sairia discurso tão sibilino, urdido e armadilhado como aquele. Aquilo é coisa de tara controleira saída de jurista experimentado e calejado na arte de maquinar, quiçá um assessor e comissário político muitíssimo experimentado. Aquilo também não é acidente, incidente ou episódio: é teste para programa a aplicar a todos no futuro. Sei destas coisas, pois sou por natureza pessimista, assisti a indizíveis processos e maquinações canalhas e defendi-me sempre reflectindo sobre a prodigiosa capacidade das pessoas inferiores em destruir, mutilar, enfraquecer e tramar a vida de terceiros. Aquela Tereshkova é uma indutora: quem a secunda, na sombra, sabe o que quer e para onde vai.

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