10 junho 2007

10 de Junho sem sentido


Sem armas, mas com muitos barões e asfixiante vil tristeza, sem panache e com um protocolo de Estado roçando a pelintrice, mais um 10 de Junho. Já não há soldados, nem marinheiros, nem viúvas, nem mães para condecorar. O Terreiro do Paço está vazio e o sentido da grandeza desapareceu. Muitos iberistas latentes, muitos ignotos medalhados, pastelinhos de bacalhau, pipis e cadelinhas regadas com carrascão. Discursos-conserva, de frases feitas que morrem na boca antes de proferidas, barrigas imensas, amiguismo, curibequismo e outros favores trocados, povinho posto à distância, falsas elites pavoneando-se no fruste palco de um país que teme proferir o seu nome, se esquece do seu passado e tem medo do futuro. Camões morreu, definitivamente. Dele já nada resta. A sua lírica fenece, ridícula: já não há as petrarquianas Lianor e Dinamene, mas só Cátias e Vanessas. A sua epopeia esconde-se, censura-se e interpreta-se na conveniência dos mitos que preenchem o vazio presente. Tudo aquilo é impublicável: já não se profere o nome do Castelhano, que rompeu as muralhas e conquistou, sem Aljubarrota; já não há Mafoma, nem a Mina, Malaca, nem Goa, nem Macau, nem o Mar Tenebroso, nem capitães, conquista e tráfico.Que triste é viver assim, sem nada por que valha a pena empunhar uma espada, sem uma bandeira, sem um Rei que nos una.

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