26 maio 2007

Se estou zangado ? Sim, e muito

Pergunta-me um caro leitor se estou zangado. É evidente, para quem leu o último apontamento aqui depositado, que me sinto enganado, frustrado e insultado pelo estado a que chegou o regime. Por todo o lado ressuma a podridão, fuga às responsabilidades, incompetência, crime premeditado ou inconsciência criminosa.


Que me lembre - na sucessão quase estonteante em que as coisas têm ocorrido - nunca estivemos em situação tão perigosa como hoje: nunca foi tão notória a fragilidade do Estado; nunca a autoridade se mostrou tão errática como incapaz; nunca os poderes constituídos se mostraram a um tempo tão pusilâmines e tão arrogantes; nunca tantos escândalos de nepotismo, abuso de autoridade, censura, intromissão e manipulação da opinião que se publica atingiu foros de verdadeira agonia como hoje; nunca tantos governantes foram confrontados com inverdades e mentiras; nunca se exigiram tantos sacrifícios sem que os seus inspiradores tivessem a elementar coerência de os praticar.


A semana foi, de facto, um torvelinho de pequenos acidentes que deslustram o Estado de Direito, a democracia, o civismo e o bom nome das instituições: um governante que nomeia a filha, mudando-lhe o apelido, uma lista camarária inteiramente composta de arguidos, um ministro boçal desconsiderando milhões de portugueses, um professor denunciado e alvo de processo disciplinar por um inócuo comentário sussurrado a um colega no defeso do gabinete.


A democracia, mais que um método, exige uma ética. Ora, quando um regime que se diz fundado na soberania do povo se precipita na mais ignóbil das mascaradas, quando demonstra não cumprir os princípios elementares da ética do serviço público - Princípio da Legalidade, Princípio da Igualidade, Princípio da Lealdade, Princípio da Integridade, Princípio da Competência e Responsabilidade - e quando a tudo isso soma incompetência técnica, incapacidade de gestão e direcção, favoritismo e incontrolável apetite pelo domínio da palavra, da opinião e até a presunção de certeza, deixa de ser democrático.


Portugal transporta um velho historial de tirania, censura e condicionamento misturado com demagogia, corrupção e má governação, pelo que tomar este momento como uma simples conjugação de acasos é erro; diria mais, é um perigo para todos quantos amam a liberdade e temem os fantasmas do despostismo que ciclicamente regressam triunfantes após o colapso de regimes de balbúrdia. Neste Reino Cadaveroso parece só haver espaço para essa sucessão de tirania seguida de balbúrdia e balbúrdia seguida de tirania.Está escrito, se assim continuar, que em breve lá estaremos.

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