09 maio 2007

Pedro

Os amigos não têm necessidade de negociar os mesmos artigos, nem partilhar negócios, nem tão pouco se lhes exige que pensem da mesma forma. Isso é para os sócios e para toda essa gente que vai entrando e saindo das nossas vidas ao sabor das subidas e descidas, das circunstâncias e azares do trânsito, dos acidentes e incidentes desta coisa com que vamos preenchendo o calendário do nosso absurdo. De amigos nunca me afastei, nunca os traí enquanto amigos, nunca em mim encontraram uma porta fechada, um silêncio, um gelado aceno. Não sou muito sociável. Durante anos torturei-me com essa terrível e bisonha característica. Tive - tenho - sete, oito, dez amigos no máximo, pessoas em que confio em absoluto. Os outros não são amigos; são conhecidos: aparecem, desaparecem; não sei se estão vivos ou mortos. Diz o velho amigo Humberto que não erras na apreciação. Sim, está correctíssimo. Mudou o sumário. Deixei para trás muito daquilo em que acreditava. Razões ? Poderia enunciá-las, tantas são, a começar pelo descrédito que em mim se foi instalando a respeito da natureza humana, que não mudou desde o momento em que - como acreditavam os brâmanes - a grande aranha fez o mundo com o produto da sua convulsa digestão. Como o homem é produto disso, como nunca mudou, perdi ilusões transformistas, evolucionistas e outras só justificáveis no pressuposto da crença em "revoluções", "revoluções ao contrário" e outros sonhos de perfeccionabilidade dos homens e da sociedade.


Conheci Le Pen e a sua gente e só encontrei ódio, boutades, simplificações e esquematismos. Poderiam objectar-me que os outros são assim, também, mas hipócritas, velhacos e sinistros. É coisa acertada não conviver com políticos - com esses dependentes do afrodisíaco espectáculo do poder - mas entre essa outra direita e a minha (que estimo aristocrática, democrática e monárquica na velha síntese conseguida por Hume e Montesquieu), encontro duas ou três pequenas grandes dissemelhanças: "aquela" vive de arremetidas, não se lhe conhece projecto confessável e tem, para oferecer, apenas a "milícia". Se tivesse o poder, repetiria absolutamente tudo o que a perdeu e trouxe o triunfo absoluto de tudo o que dizia abominar. Depois, confesso que me chocou, descobri - já os velhos Alain de Benoist e Ernst Nolte o haviam feito - que aquilo em que muitos acreditavam era, apenas, uma forma de bolchevismo de direita. Descobri o valor da liberdade, dessa liberdade que tanto me custou alcançar, e por ela me baterei sempre, por mim e pelos outros. Quer se queira ou não - não obstante todos os males, as imperfeições e não escondendo a velha e sempre respeitável tradição anti-democrática da Filosofia - que essa liberdade só pode ser entendida como participação dos homens na vida da Cidade, sem impedimentos, sem restrições e infantilização.


Como aceito sem pestanejar a ideia da desigualdade dos homens, a melhor sociedade será aquela em que a competição, regrada, se afere no pressuposto de quem alcança e detém o poder pela inteligência, perde-lo-á quando esta declinar. É a rotação natural da elite que a democracia permite; a milícia combate-a, não arreda pé, interpreta a passividade dos que se lhe submetem como aprovação. É por tudo isso que esses "modelos fortes" não resistem às primeiras varizes, às brancas e às calvas do tempo. Todas essas experiências acabaram por transformar os jovens atribulados e revolucionários em defensores de sonhos estafados, vulgo gerontocracias. Não quero que uma mirífica vanguarda pense por mim, decida por mim, governe por mim, como não quero que me impeçam de ter o que bem entender, que me libertem do mal e apontem o caminho da salvação. Depois, deixei de aceitar que antes do homem se encontre a sociedade ou o Estado. Há, certamente, a sociedade, com os seus valores, tradições, formas de pensar, mas é aos homens concretos - eu, tu, fulano e sicrano - que se coloca permanentemente a responsabilidade e a possibilidade de reparar, desacreditar, defender aquilo que consideram importante para a manutenção da comunidade. Assim, sou também leitor agradecido de Burke.


Há, à esquerda e à direita, pessoas admiráveis, mas também há, numa e noutra, bandidos, canalhas e escumalha. Ora, aceitando, com o meu inalterável pessimismo, que é entre o pior que se faz o barro da actividade política, prefiro que, sobre ela, triunfante e permanente, se sente a democracia e a liberdade. Só assim nos aquietamos com a ideia da brevidade do mando dos bulímicos do poder.

Sem comentários: