21 maio 2007

O homem era fascista, que mal tem isso ?


João Paulo Cotrim, Miguel Portas e Guilherme Oliveira Martins na RTP-2 e até o incansável Marcelo na 1 tratando infantilmente do tópico do dia: Tintin. Uma quase monomania em torno das ligações ideológicas e amizades fascistas de Hergé: obsessão, repetição, estreiteza de informação e visão, manipulação e ausência flagrante de gosto. É verdade, Hergé era fascista, pró-nazi, anti-semita, anti-americano, nostálgico dos universos pitorescos, dos povos irredutíveis e declarado inimigo do comunismo. É-me totalmente indiferente que fosse ou não seguidor de Léon Degrelle, de que, aliás, o jovem e heróico repórter é fiel clone. Hergé era um artista genial, como o foram Riefenstahl, Céline, T.S. Elliot, Pound, Mishima, Knut Hamsun, Richard Strauss e tantos outros, também fascistas ou nazistas.
No universo artístico, a admiração de quem frui reside na captação da grandeza do objecto criado, não no metatexto, nos acidentes biográficos ou no fantasma do criador na criação. Que se danem Jack London, Brecht, Arthur Koestler, John Reed, Eisenstein, Shostakovich e Neruda se foram comunistas e se serviram o concentracionarismo de Estaline ou seguiram o genocida Trotsky, conquanto me proporcionem o impagável prazer de os ler, ver ou ouvir. Às pessoas pequenas interessam as coisas pequenas. Portas e tantos outros minimalistas da exigência preferem a pedreira às pirâmides. O aspecto ideológico de artistas fascistas e comunistas só interessará aos débeis mentais que os exaltam ou odeiam por haverem servido Estaline ou venerado Hitler. Hergé era fascista. A mim incomoda-me tanto como saber que amanhã acordarei às 9 horas, almoçarei pelo meio dia e beberei um café pelas 4 da tarde.

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