03 maio 2007

O bom oportunismo político e o mau ideologismo


O debate político é exterior à filosofia política; a acção política é indiferente ao rigor ideológico. Neste particular, o estreito ideologismo do século XIX - o tal que levou às grandes tragédias do século XX - esvaziou-se. Entre ir a um templo ou deixar-se deslumbrar por uma religião política, é preferível optar pelo templo/sinagoga/mesquita/igreja. As religiões políticas não resistem à atmosfera temporal, sofrem de acelerada caducidade e com o passar das décadas deixam de inspirar fé, paixão, ódio e motivação. Como lembrou Steiner, há hoje um pouco por toda a parte uma nostalgia do absoluto, desse tempo sem tempo que ligava o imaginário dos homens ao primeiro momento: a revelação de Javé a Moisés, a pregação de Cristo, a iluminação de Maomé.


Depois, as religiões reveladas sofreram fortes abalos causados pela impugnação hermenêutica e historiográfica, pelo comparatismo e pela semiologia Eis que vieram os ideólogos, cheios de clareza, sistemas fechados mas coerentes, de uma coerência tal que a curto prazo se viram literalmente ultrapassados, desautorizados e excomungados pela ciência. Marx não publicou os últimos textos sobre materialismo, pois sabia encontrarem-se feridos de morte pelas descobertas entretanto surgidas no domínio da Física. As loucuras destemperadas do "racismo científico" eram, ao tempo em que ganharam relevância ideológica, verdadeiras abominações contra a ciência: a biologia, a citologia, a genética, a antropologia física rebateram uma a uma as convicções racistas.


De súbito, com o racismo ideológico fora de campo, com o marxismo transformado em preciosidade museológica, com o "pensamento social-cristão" marcado e datado, com o "tradicionalismo" revelado como um mito de uma medievalidade jamais comprovada, tudo desabou. As direitas ficaram orfãs, as esquerdas nuas e o centro cresceu. O surgimento dessa nebulosa invertebrada que dá pelo nome de Centro é consequência do afundamento generalizado da certeza. O ocaso das ideologias políticas e do doutrinalismo, lembrados por Uscatescu e por Daniel Bell, abriu portas à tão abominada "tecnocracia". Para o homem comum, importa mais aferir os resultados de uma boa governação - a que provê pão, trabalho, segurança e felicidade - que derimir sobre a fundamentação anterior - eu diria exterior e inaplicável - daquilo que anima a acção governativa. Há um bom-senso - talvez a única característica palpável nas pessoas - que as leva sem grandes razoamentos a escolher entre o bem e o mal, e escolher sempre entre o mal-menor face ao mal. Ora, a política com ideias mas sem ideologia (e até sem doutrina) não nos parece flagelo maior, conquanto - e cá está o bom-senso - não se coloque em causa nenhum dos pilares da vida colectiva: a nação, a liberdade da sociedade, as liberdades de todos e de cada um.


Paulo Portas criou escândalo ao afirmar que o novo PP não se deixaria submeter ao rigorismo ideológico. Fez bem. Eu diria que encontrou a solução. Não se deixar escravizar pela ideologia, não se submeter em absoluto a um suposto incorruptível doutrinalismo, não quer dizer que se flutue ao sabor dos acontecimentos. Pelo contrário, a acção política mais séria e a mais verdadeira depende do sentido de oportunidade e perícia dos líderes. Que eles atentem ao interesse daquilo que não podem discutir nem alienar - a nação, a sociedade, os portugueses - é tudo quanto lhes devemos entregar. Tudo o mais, que fique para as estantes das bibliotecas particulares e para a fruição dos entusiastas da Filosofia.

Sem comentários: