15 maio 2007

Molestar e maltratar crianças


O tema enoja-me e finjo que nem existe. O facto de um adulto se interessar sexualmente por crianças é um duplo mistério: mistério por constituir uma violação elementar da simpatia natural que as crianças nos inspiram, sentimento que dita protecção, respeito e responsabilidade por esses seres que iluminam com ingenuidade cativante o mundo pardo, tortuoso e medíocre dos adultos; mistério por encobrir facetas primitivas do ser humano, insusceptíveis de aprimoramento. O folhetim Madeleine mostra à saciedade os mais reservados prognósticos a respeito das cavernas que habitam muitos adultos, reforçando a nossa convicção do carácter perverso da estirpe humana. Neste particular sou, cada vez mais, de um pessimismo antropológico absoluto. Contudo, no seriado infindo de maldades cometidas contra crianças, cuja revelação tem pontificado no noticiário português ao longo dos últimos anos - com muito moralismo hipócrita à mistura - retenho algumas notas:


1 - A pedofilia acontece, sobretudo, na tal "célula básica". Não me convencem os rodriguinhos do "instinto maternal" e dos "valores" infusos geneticamente quando somos confrontados com evidências como as da miúda que foi cortada às postas pela própria mãe depois de haver sido morta à bofetada pelo irmão da procriadora, com quem esta mantinha relações incestuosas. Não me convencem pais que drogam as crianças às seis da tarde por forma a garantir escapadelas nocturas para jogos de swing. A família - a mais violenta das instituições - acoberta, quase sempre, os casos mais arrepiantes. O combate à pedofilia deve começar pela maior transparência da família. Podem pais alcoólicos, toxicodependetes, prostitutas, cadastrados, violentos e outros ter a seu cargo crianças ? Não. Nesta matéria, sou absolutamente intervencionista. Há por aí milhões de homens e mulheres que poderiam ser pais muito mais dedicados e respeitadores da integridade física e psicológica das crianças que os progenitores. As crianças exigem tempo, amor, protecção e uma paciência de santo, por vezes. Ora, um número apreciável de adultos não possui equilíbrio psicológico, estofo altruísta e capacidade de dar que os habilite a ter crianças sob a sua alçada.



2 - A má prática, importada dos EUA, de difundir a ideia de uma conspiração pedófila universal constitui uma terrível pedagogia do medo. Eu gosto naturalmente de crianças, como qualquer adulto. Ora, gostar de crianças não envolve qualquer interesse sexual; pelo contrário, a alegria que as crianças nos proporcionam tem a ver com a enorme fonte de tropelias em que estas vivem imersas e pelo efeito contagiante e saudável de descompressão que provoca nos adultos . O universo infantil é, sem dúvida, o melhor analgésico para a "seriedade" em que nos afogamos. Dizia-me há dias uma amiga que já nem se aproxima de uma criança com receio de ser mal interpretada. Os pais vivem em histeria e insegurança constantes, insuflada pelo jornalismo de sarjeta e pelos moralões carregados de agenda política. Nos EUA até já é proibido a um professor chamar um/a aluno/a para uma conversa a sós. As portas têm de permaneceer abertas, sendo requerida a presença e um outro professor. Desta vaga demencial decorerrão futuros adultos desconfiados, receosos e incapazes de relações sociais equilibradas.


3 - Os adultos de hoje são os adultos de ontem, de anteontem e de sempre, assim como a sexualidade de hoje é, sem tirar nem por, estatística e funcionalmente, a que sempre foi desde as cavernas. Quanto mais se investir no medo e na sexualidade idealizada, maior o perigo de transgressão. Ou não foram a Idade Média, o século XVII e o puritanismo victoriano os períodos mais negros na ocultação da violência sexual ? Só quem nunca leu o poderá negar. Na Lisboa dos anos 20 havia prostitutas de 12 anos, na Madrid ultra-católica do século XVII havia um bordel em cada esquina ( vide Gregorio Maranõn, Conde Duque de Olivares: la passion de mandar), nas abadias medievais os noviços eram expostos a todo o tipo de depredações, na Inglaterra de Victória "civilização rimava com sifilização". A ideia de "decadência" só vale junto de quem nunca leu e comparou testemunhos literários. Ou não era na sociedade de bons pais de família que se levavam rapazes de 13 e 14 anos a lupanares ? Ou não era nessa sociedade de pais estremosos que grassavam o cancro mole, a blenorragia, os dentes encavalitados e a cegueira precoce ditados por infinda pedatura siflítica ?
Para escândalo de muitos, atrevo-me dizer: nunca se respeitaram tanto sexualmente as pessoas como hoje. Ora, a "educação sexual " - salta logo a terreiro um moralão de dedo em riste acusando esconder tal educação intuitos inconfessáveis - é um agente poderosíssimo de inculcação de direitos nas crianças. Em Portugal, tudo o que se relaciona com o sexo carrega terrores. O sexo, entre nós, continua a ser matéria invisível e é precisamente por isso que temos as maiores taxas europeias de gravidez juvenil, DST's e frustrados. Não se fala. O sexo destina-se às piadas sórdidas, ao chat na internet e às garatujas nas casa de banho públicas.



4 - A tribalização da culpa. Como outrora, ninguém quer assumir o que quer que seja. Um nacionalismo estreito vigora neste território proibido. Os britânicos tentaram por todos os meios inculpar portugueses pelo rapto da miúda, repetindo a velha história da sífilis - que era, para os franceses, o "mal italiano"; para os espanhóis, o "mal napolitano" e para os italianos "o mal espanhol" - esquecendo-se que a sexologia possui hoje instrumentos quase precisos sobre a transversalidade e universalidade estatística dos comportamentos sexuais. Há proporcionalmente tantos pedófilos britânicos como portugueses, pelo que haverá cinco vezes mais pedófilos no Reino Unido que em Portugal, dez vezes mais pedófilos na Índia que na Grã-Bretanha e 130 vezes mais pedófilos na China que em Portugal. O lobo mau, afinal, está em todo lado.
5 - A ideologização do sexo. Há cerca de um ano, os aterrorizados sexuais de todos os azimutes - à cabeça os puritanos do comunismo, o tal que tinha em Mao um entusiasta por meninas de 10 anos, mais Béria, que raptava, violava e mandava estrangular ninfetas nas ruas de Moscovo - zurziram forte e feio o Presidente Putin por este haver acariciado uma criança em plena Praça Vermelha. Ora, Putin, talvez de forma canhestra, fez o que qualquer adulto faz a uma criança: beijou-a em público. Olhando para os cães e gatos que temos em casa, o comportamento é o mesmo: um animal adulto, sempre que se acerca de uma cria - até um leão o faz com antílopes crias - contém a violência e exibe gestos protectores. Nos EUA, os bispos católicos inibem qualquer gesto carinhoso, com receio de retaliações mediáticas, após dois ou três escândalos que envolveram sacerdotes. Qualquer dia, até ao Papa será proibido beijar crianças em território dos EUA.

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