13 maio 2007

Mobbing


É uma prática bem portuguesa, ao contrário do que muitos poderão pensar. Aqui não se mata ninguém no Forum; as pessoas são "desaparecidas" por processos mágicos. Deixam de ser convidadas; depois, deixam de ser referidas, não aparecem nas reuniões, corta-se-lhes uma fatia do salário, depois outra e, finalmente, desaparecem. Um dos mais praticados processos de destruição de identidade pública leva, sintomaticamente, um designativo que poucos conseguirão identificar: mobbing.



Sei do que falo. Fizeram-me o mesmo por três ou quatro vezes: num jornal para onde fui ocupar funções de director-adjunto e do qual, depois de o haver servido sem remuneração - ah, como era um bom escoteiro nessa altura - recebi os tratos de polé mais indignos; numa universidade que servi exemplarmente, à qual entreguei, pronta para facturar, uma pós-graduação com todos os apetrechos requeridos, mais uma biblioteca cumprindo todos os requisitos exigidos por lei; numa empresa privada, onde reorganizei todos os processos de recuperação de dívidas mal paradas, as quais, logo que ressarcidas, me valeram um convite para funções inferiores, com salário inferior e tudo; por último, em funções superiores de direcção no Estado, ganhas em concurso público face a concorrentes que antecipadamente haviam recebido garantias de sucesso.


O mobbing é uma prática complexa, tão complexa que raramente se conseguem reunir provas que confirmem a sua existência; daí que seja um dos expedientes mais usados num país onde a cobardia prevalece. Meias-palavras, uns pós de intriga, uma pitada de difamação, muita invejazinha, medíocres e tolos à mistura e, pronto, uma vítima isolada, denegrida, intimidada e "desaparecida". Este processo campeia nos ministérios, nas universidades, nas câmaras, nas empresas públicas e privadas. Praticam-na, sobretudo, os desclassificados trabalhando em rede, os tolos ciosos das suas quintas e campanários, os descerebrados e incapazes aterrados pela perspectiva de se baterem contra homens (e mulheres) dotados de coluna vertebral, princípios e capacidade de realização.


Se atentarmos, o mobbing não se realiza apenas contra pessoas singulares: há-o contra grupos, empresas, partidos cuja existência pode, de algum modo, diminuir a eficácia de uma sociedade fundada no faz-de-conta. Um dos mais bem sucedidos processos de mobbing estriba-se no imenso arsenal de possibilidades que o ridículo apresenta. Rir-se de uma pessoa/grupo, contar anedotas, deixar um rasto de suspeições, troçar de um corte de cabelo, de uma característica da indumentária, do sotaque, da forma de andar são, acreditem-me, bem mais eficazes que rebater princípios. Posso dar-vos cinco exemplos, que estimo bem sucedidos, de vítimas do mobbing português: D. Duarte de Bragança, Alberto João Jardim, a Igreja Católica, os empresários e a função pública. Escolho-os arbitrariamente, posto que não são, na parte que não no todo, objecto da minha simpatia especial. Contra eles exerce-se mobbing activo, permanente e tão impiedoso que se acabou por fundir com essas personalidades, com aquela instituição e com aquelas ocupações. Pensemos, pensemos, e logo nos surgirão dezenas de outros casos análogos de mobbing, surgidos do prodigioso alfobre de canalhices de que é capaz este povo que se esgota na arte maior de serrar pernas, destruir pedestais e ostracizar da Cidade aqueles que a poderiam ajudar a sair da mansa mediocridade em que vive inebriada.
Considero-me um homem forte, resistente às provações e capaz de arrostar lutas prolongadas e até sangrentas. Para além disso, como tenho alguns meios materiais que me isentam de prestar vassalagem a quem quer que seja, sacudo tentativas de mobbing e saio a terreiro, de espada em riste e vocabulário solto, sempre que um qualquer bandido se atreve recorrer a tal manobra. Contudo, sei de muitos que não resistem. É deveras triste assistir ao infame espectáculo das matilhas despedaçando um pobre escolhido como alvo de mobbing.
Ontem encontrei um velho conhecido, homem probo, respeitador, esforçado e, para mais, de uma inocência que perdi há muito. Disse-me, envergonhado, quase que desculpando-se, que perdera o emprego. Fiquei surpreendido, pois tenho-o como alguém capaz de ultrapassar em dedicação ao trabalho a generalidade dos outros bípedes. Mas logo, implacável e nua, caíu a razão: "trabalhei para eles durante dez anos, mas logo que terminei o doutoramento senti que tudo se havia conjugado para me perder". Apertei-lhe a mão e vi-o, vergado, quase velho, afastar-se com passo curto, encostado às paredes. Disse para os meus botões: outra vítima do mobbing ! Que terra notável esta, que "defeitos os tem todos, só lhe faltando as qualidades" (Almada).

5 comentários:

silvia sabroso disse...

Caríssimos
Estamos a desenvovler no âmbito de um trabalho de mestrado na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universiade do Porto um estudo sobre o assédio moral no trabalho em Portugal. Em virtude deste estudo pedimos a trabalhadores com mais de 6 meses de antiguidade que colaborem de forma completamente CONFIDENCIAL, que respondam a este breve questionário (copiar link para a barra de endereço e carregar enter). Esta temática encontra-se pouco estudada no nosso país e, para colmatar essa grave lacuna, esperamos que disponibilize 5 minutos do seu tempo para que possamos perceber a sua percepção cerca das suas experiências no seu contexto de trabalho.
Se conhecer alguém que se encontre numa situação de assédio moral no trabalho, por favor, reencaminhe-lhe esta mensagem.
Obrigada, desde já, pela sua colaboração.

http://www.encuestafacil.com/RespWeb/Cuestionario.aspx?EID=470229&MT=X&MSJ=N%c3%83O_COPIAR-ESTE-LINK

silvia sabroso disse...

Peço desculpa pelo incómodo, mas o link que apresentei no post anterior apresenta alguns problemas. Assim, apesar de vocês, muito amavelmente terem respondido, eu não tenho acesso às vossas respostas. Sem querer abusar, mas já abusando, pedia-vos que respondessem de novo mas neste link onde os problemas de funcionamento já não existem:

http://www.encuestafacil.com/RespWeb/Qn.aspx?EID=480226

Mais uma vez desculpem e EXTREMAMENTE AGRADECIDA pela vossa colaboração

Inês disse...

Aqui vai a minha experiência, de forma resumida, não só de burnout, mas, também de “mobbing” (assédio psicológico, ainda pouco considerado em Portugal). Não sei, neste momento, o que fazer. Talvez devesse ficar calada, uma vez que ainda decorre. Mas a noção de injustiça, aliada a um stress traumático provocado pela situação acabam por ter o efeito contrário… tenho tudo a perder, não sei se algo a ganhar. Talvez apenas um pouco da minha saúde e o respeito pelos princípios de proporcionalidade e igualdade, entre outros. Neste momento vivo em suspenso.
Sou docente efectiva, preferindo, neste momento, não me identificar, dado que o processo ainda decorre. Logo, dependente de um Ministério, logo dependente hierarquicamente de um Director. No passado ano lectivo decidi mudar de escola e, portanto, entrei noutra, esta a que refiro, como professora do quadro.
Aquando da minha apresentação, a minha Coordenadora, em Julho, apresentou-me uma hipótese de cenário, quanto a horário e matérias a leccionar, perfeitamente razoável.
Qual não foi o meu espanto quando em Setembro, me foi dado um horário que não respeitava as mais elementares disposições legais, nomeadamente:
1º - as respeitantes à jornada diária de trabalho (permanecia no meu local de trabalho mais de sete horas, nalguns dias).
2º - as respeitantes a intervalos de descanso (tinha, por exemplo, 4 horas de “furo”).
Para além disso, atribuíram-me uma imensidade de níveis de matérias, às quais, humanamente, era impossível dar resposta (5 níveis mais tarefas extra).
Finalmente, e embora o Director o negue, as condições de trabalho não eram as melhores.

Inês disse...

(cont)A Escola pertence ao grupo das que se encontram em fase de “reabilitação”, ou seja, imaginam o que é trabalhar ao som de martelos pneumáticos? Imaginam ter quase de gritar para ser ouvida pelos alunos e vice-versa? E que tal ler-se um texto, com este tipo de acompanhamento musical? Mas pronto, o nosso Governo quer mostrar obra feita… os intervenientes no processo, que se “amanhem”, desculpem a expressão.
Comparativamente a colegas da minha área, o meu horário foi, sem dúvida, o mais aberrante.
Tenho um filho de quase seis anos, totalmente a meu cargo. ao qual não tinha tempo para dar apoio, dado que, enquanto permaneci ao serviço, trabalhava todos os fins-de-semana para poder dar cumprimento ao “incumprível”.
Depois, por sua iniciativa, o Director, piorou ainda mais o meu horário, alargando de 3 para 4 horas, um dos dias em que tal tinha as tais horas de enormes “furos”.
Lembro que este senhor, aquando da entrega de horários, se mostrou disponível para fazer alterações “razoáveis” nos horários.
Recordo e tudo tenho registado, que manifestei à minha Coordenadora essa vontade de alteração. Mas a poucos dias de início de aulas, com os horários de alunos já feitos, referiram essa impossibilidade.
Portanto, e desculpem a expressão, ou aguentava e calava ou aguentava e calava.
Mas não aguentei.
A gota de água foi ter sido posta em causa numa reunião, por uma colega, neste caso Directora de Turma, no sentido de não ter dado cumprimento, num prazo determinado, a uma planificação específica. Como poderia? E lá aguentei os ataques “educados”, perante a audiência que, era, neste caso, um Conselho de Turma.
Vim pra casa, completamente esgotada, em pânico. Desanimada porque, malevolamente, estavam a fazer passar a imagem de uma pessoa não cumpridora, quando sempre o tentei ser, ao longo de 18 anos de ensino.

Inês disse...

(cont)Senti que me estavam a dar excesso de trabalho, precisamente para demonstrarem que era incapaz.
Estive 15 dias de baixa. Durante esse tempo, consultei um Sindicato, que confirmou as irregularidades horárias. Para além disso, houve alguma estupefacção perante o conteúdo e não só a forma do meu horário. Cinco matérias diferentes para preparar, aliadas a programas específicos para alunos com dificuldades específicas, mais vários co-secretariados de reuniões, digamos que não era pouco.
Aconselharam-me a enviar uma exposição escrita ao Director. Sabia que teria 30 dias para me responder. Não tive direito de resposta! Ignoraram-me, simplesmente. E o meu estado de saúde entrou em colapso. Foi-me diagnosticado stress pós- traumático, como já referi e esgotamento. Mantive a minha baixa, durante aqueles 30 dias, aguardando a cada dia, uma resposta na minha caixa de correio. Foi como que um jogo de forças psicológico.
Perante isto, recorri a um advogado que constituí meu procurador. Que lhe voltou a colocar a minha situação, por escrito, bem como perguntas de ordem prática. E só nessa altura, por seu intermédio, o sr. Director lhe deu a tal resposta.
Foi uma resposta lacónica e que não respondeu, na sua maioria, às questões colocadas. Sugeriu um reajustamento horário de 3 horas sem concretizar. Mais, possuía totais inverdades. E concluía com uma tentativa velada de intimidação. Isso revoltou-me, magoou-me e piorou ainda mais a minha condição física e psicológica.
Perante isto, nova carta se lhe enviou, à qual nem se dignou responder.
Sinto, neste momento, que a intimidação, a coacção à distância, o jogo psicológico, continua.
O Sindicato aconselhou-me a não regressar (e como conseguiria?) até as questões estarem resolvidas.
Mas resolvidas, como?
Outras pessoas, aconselharam-me a voltar, tentando dialogar e solicitar um lugar, por ex, na Biblioteca. Mas se sempre fui ignorada, estou de rastos psicologicamente, não consigo.
Quando falo de pessoas que analisam apenas o ponto de vista legal é porque tenho a noção perfeita de que não valorizam, talvez por algum desconhecimento, situações como a perseguição, a intimidação. Pessoas há que não conseguem avaliar o resulta de um stress pós-traumático. A sensação de impotência, de pânico, perante o enfrentamento de situações perturbadoras, tão marcantes, porquanto, injustas e de má-fé. E isso tem de ser tomado em conta, quando se fala de Trabalho.
Neste momento estou “condenada” a não trabalhar. Neste momento, estou “condenada”, a usar uma espécie de pulseira electrónica durante a maior parte da semana, dado que tenho de ficar em casa, para possível inspecção médica.
Neste momento, sinto vergonha por viver num país em que os espírito de compadrio, a mediocridade de muitos dirigentes, prevalece. E em que, por receio, insegurança ou inveja, se tenta “calar” quem, modestamente, terá o seu valor mas que não tem medo de afirmar o que pensa.
Que fazer?