14 maio 2007

Falta-nos espionagem e saltos altos

Soube hoje, pelo jornal, que a Espanha acaba de nos passar a perna nas relações culturais com o Brasil. Através do Santander "Portugal", todo o universitário brasileiro que aqui queira vir com uma bolsa de investigação candidatar-se-á às excelentes condições oferecvidas pelo banco espanhol. O que faz o Instituto Camões ? NADA.
Dizia-se nos EUA, antes da última grande guerra, que onde aportasse um vaso de guerra nipónico em visita de cortesia, havia jantar a bordo com todos os barbeiros e cabeleireiros da cidade, posto todos haverem sido colegas do comandante na Academia Imperial Naval de Hiroxima. Com isto se pretendia dizer que o serviço de espionagem japonês estava em todo o lado colectando informações: dos bares de hotel aos jornais, das empresas aos serviços meteorológicos, das maisons closes aos confessionários. Não havia cidadezinha na costa Leste, no Havaí, na Malaia, Filipinas ou Insulíndia onde não existisse uma casa de hóspedes, uma oficina de reparação de automóveis, uma alfaiataria ou uma lavandaria propriedade de súbditos do Sol Nascente. Levando a coisa a extremos, dir-se-ia que os japoneses sabiam mais a respeito dos hábitos, fraquezas e dificuldades de Mr. Smith e de Miss Jones que os governos de Sua Majestade ou os esbirros do Himmler norte-americano, Edgar J. Hoover. Espionagem e propaganda são instrumentos preciosos da actividade diplomática, só não as usando quem teima em confundir relações externas com a frivolidade dos jantares, almoços e sundown.



A diplomacia portuguesa parece amarrada à ilusão das embaixadas preguiçosas. Para além de extremamente dispendiosas, as embaixadas não só se fixam na rotina burocrática, como evitam desenvolver lóbi português e favorecer a iniciativa nacional extra-fronteiras. Tal complexo inibidor permitiu que, ao longo das últimas duas décadas, fossemos perdendo para franceses, espanhóis e brasileiros - e agora para chineses - parte importante da influência que detiveramos na África lusófona, na África do Sul e no sudeste-asiático. Até no Canadá, EUA e Venezuela, o lóbi português é fraco, não havendo, que eu saiba, qualquer concertação permanente entre o MNE e as comunidades portuguesas. Portugal faz por não existir na cena internacional. De facto, para além de Figo e Ronaldo, Portugal é, para a generalidade dos habitantes do globo, uma província de Espanha ou um país norte-africano. Falta-nos acutilância, falta-nos saltos altos que marcam a presença de Espanha nas sete partidas do mundo. Temos ainda mais vergonha que penúria de meios. Isto paga-se caro. Continuamos, neste particular, agarrados à invisibilidade pudibunda.

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