14 maio 2007

Fé menina



Handel, Largo de Xerxes

Aquela multidão a perder de vista não pode deixar ninguém indiferente. Ano após ano, a mesma impressionante moldura humana contrariando os tropos da descrença e da descristianização instaladas, espantando os sorridentes e ufanos sociólogos das estafadíssimas teses da alienação - porventura os mesmos que iam em romagem a Moscovo depositar um molho de cravos aos pés de Lenine - e lembrando aos incréus como eu que o homem é um animal religioso. Aquela gente acredita genuinamente nas aparições da Mãe do Céu, devota-lhe um amor sentido, consagra-lhe os maiores sacrifícios, promete-lhe tudo pela recuperação de um ente amado, pelo cancro que mina o organismo, pelo emprego perdido, pelo filho que partiu para a emigração, pela terra que não produz, pelo amor que não voltou. Respeito-os e quase me comovo perante a solene grandeza que se instala. Ali não há diferenças e diferendos, apagam-se as pequenas vaidades e as grandes teimosias; dir-se-ia que nesse terreiro iluminado pelas velas, a humanidade patética e mesquinha se transfigura e ascende. Calo-me e não deixo de sentir uma pontinha de remorso por haver há muito perdido esse dom que dá sentido a tantas vidas.

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