11 maio 2007

Curiosidades de um brando país: facínoras eméritos

As duas simpáticas criaturas cujos fácies aqui reproduzimos da Galeria de Criminosos Célebres em Portugal (4 vols.), de Santos Júnior (et. al.), dada à estampa em 1898, desmentem a piedosa ideia de ter sido Portugal dos outros tempos um aprazível prado virgiliano. Sociedade violenta, como todas as outras, atingiu píncaros verdadeiramente lombrosianos em finais do século XIX. Basta ler Fialho e Abel Botelho, atentar na violência quase antropófaga das iras polemistas de então, espantar-nos com o tom terrorista dos libelos republicanos, escrutinar o noticiário dos jornais da época, para um frémito de espanto arregalado nos percorrer as veias. Aquilo era, no mínimo, gente que hoje só se encontrará nas fragas da Albânia, nas ruas de Cali ou Bagdade.
Proxenetas, violadores, infanticidas, uxoricidas, decapitadores, estripadores, estranguladores, envenenadores, ateadores de fogos - cada um exibindo uma alcunha arrepiante: o Nisa, a Giraldinha Rata, o Matuto, o Mestre Lobo, o Pera de Satanás, o Ladrão Fino, o Vidraças, o Gata Bexigosa, o Padrasto, etc, etc. Homens violentos, um Estado fraco numa sociedade ávida pelo espectáculo do sangue - os corpos trucidados das vítimas eram passados de mão em mão em gravuras ou fotografias, que se vendiam nas bancas de guloseimas e da lotaria - criaram um caldo borbulhante que no interim de duas décadas iria encontrar condições de absoluta catarse em plena violência republicana.
Hoje espanta-nos a tremenda efusão de sangue dos embates políticos da Primeira República - o 14 de Maio de 1915, a leva da morte, a guerra civil de 1919, a Camioneta Fantasma, os cárceres privados - mas esse hábito pelo sangue derramado prolongava práticas tidas por tão habituais como a satisfação de elementares necessidades quotidianas. Batia-se na oficina, batia-se nas crianças maltrapilhas das ruas, sovava-se em casa, na escola, no exército, Lisboa regurgitava de prostituição, desabrigados e desocupados crónicos, o alcoolismo e a sífilis faziam devastações e morria-se com a tísica (a "doença do peito") aos 25 ou 30 anos. Quando a fina patine de respeitabilidade se rompeu, por fim, em 1910, foi um vulcão. A quietude que os mais velhoa apontam ao "antigamente" é coisa recente. Só se fixou, com muita polícia, muito bofetão na esquadra, muita rusga e muito Limoeiro depois do advento de Salazar.

O Fraga: "Corpulento e nutrido, de rosto prasenteiro e insinuante, bem trajado, bem engravatado, ninguém o tomaria por um scroc e dos de quilate superior como é na realidade. Poucos haverá tão insignesa arte de iludir os incautos. (...) Somente o olhar o compromete um tanto. Quem o fixar com insistência, preocupa-se, desconfia. Há ali um brilho suspeito, o que quer que seja de traiçoeiro, muito velhaco, que dá que pensar. (...) Aquele crânio também não é muito vulgar. A caixa é enorme, parece haver ali algo de anormal."

O Maneta: "Era de alta estatura, forte espadaúdo, cor trigueira, mal encarado, voz grossa e rouquenha, olhar terrível e ferino. Trajava mal, quase sempre de barrete preto, casaco despido e lançado negligentemente sobre as costas. Atrevido nas falas e respostas, revelava contudo muita finura e inteligência, a par do maior arrojo. Era o tipo de salteador próprio para horrorizar quando, por ventura, fosse surpreendido dentro de uma casa."

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