16 maio 2007

Cidades assassinadas (1): Varsóvia



Richard Addinsell: Concerto de Varsóvia (1941)
Compreendo, não aprovando, o cepticismo radical de muitos polacos a respeito da União Europeia. Vítima das partilhas de Frederico e Catarina, enganada pelo Corso, campo de batalha entre russos e alemães, invadida, espezinhada e humilhada pelos nazis - que tinham o topete de os considerar um povo inferior, logo tratados como aborígenes, tasmanes ou hotentotes - e, finalmente, carbonizada em 1944, a Polónia e, sobretudo, a sua capital, reflectem os cataclismos do século XX. Varsóvia foi vandalizada a extremos que só Cartago sofreu: ali não houve piedade por museus, bibliotecas, igrejas, palácios e palacetes, jardins, escolas e mercados. Foi tudo terraplanado. Em 1939, coube a proeza demolidora aos Stukas, em 1943 aos SS, em 1944 ao exército alemão. Depois, chegaram os comunistas e os seus mamarrachos estalinistas. Reconstrui-se, fingindo a traça original, mas tudo soa a postiço. Uma capital assassinada nunca volta a ser a mesma após o estupro.

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