23 maio 2007

Cidades assassinadas (4): Lisboa



Poupada à guerra, nunca foi subjugada pelas botas cardadas do inimigo. Que me lembre, das capitais europeias, só Lisboa escapou ao demónio da guerra que se manifestou por todo o continente ao longo do fatídico século XX. Contudo, dir-se-ia ter caído por dentro, ultrajada, maltratada e violada como troféu por governantes corruptos, acéfalos e medíocres de todos os credos e bandeiras, servida como trofeú ao camartelo de patos-bravos, reduzida a caricatura viva.


Nos umbrais do século sonhou-a Fialho com monumentalidade, na senda do visionarismo que foi nota da idade do ferro, das exposições universais e outros excessos de confiança no futuro que acompanharam o nascimento da contemporaneidade. Cassiano, na crista da onda modernista, até a quis como coração da indústria cinematográfica europeia, com uma Hollywood na Caparica e adamanes de S. Francisco, antes de a situar no amplo leque de expressões da nacionalidade no Portugal dos Pequenitos. Com Duarte Pacheco, a vaga nacionalista e imperial imprimiu-lhe a gramática de grandeza e monumentalidade: Lisboa, cabeça de um grande Império, Lisboa administrativa e codificadora; Lisboa intemporal, com o típico e o moderno procurando o equilíbrio entre a permanência e a mudança.


Depois, sob Marcello - i.e, sob jugo daqueles que ainda hoje nos governam - iniciou-se a era da destruição, não daquela destruição correlata da mudança inelutável, mas da bangunça nascida do alpinismo dos atrevidos, dos fura-vidas, dos especuladores e demais predadores. Duarte Pacheco, que se conseguira impor a todos os interesses (familiares, políticos, religiosos) que continuam a limitar a liberdade da acção municipal, deixara-a granítica, caiada, hierática, ordeira e temente da racionalidade do plano que traçara. Nos anos 60, vinte anos após a sua morte, já o barraquismo, o improviso e o miniaturismo - velhas pechas portuguesas - haviam voltado.



Com o 25 da Silva e a clara opção terceiro-mundista que marcou o PREC - o PREC não morreu em 25 de Novembro; ficou nas atitudes, no desprezo por todas as formas de acatamento da lei, no culto pelo vandalismo - Lisboa entrou no vórtice. Teve de tudo: Aquilino Ribeiro Machado, que muitos cunharam de aquilixo, pela sujidade infecta em que mergulhou Lisboa, já ferida de morte pelas pinchagens e pelo muralismo revolucionários que nem a Torre de Belém nem os Jerónimos havia poupado; Nuno Abecassis, que destruiu toda a Av.ª da República, permitiu o colapso da Av.ª da Liberdade e quase permitiu a perda do Chiado; Sampaio, que se limitou a remendos e a uns coloridos, entretanto desvanecidos; Soares-Filho, que fez das barracas de zinco barracas de cimento da EPUL; de Carmona, que deixou a cidade irreconhecível, tudo passou pela CML.


A nostalgia é sempre uma condenação e um libelo contra o que está. A torrente de obras sobre Lisboa, que invade as estantes das livrarias, tem uma explicação: os lisboetas detestam a cidade onde vivem, olham para a cidade perdida com um misto de misericórdia e saudade. Lisboa foi assassinada por portugueses. Hoje, é buraco, são grafittis, portas e janelas emparedadas, obras suspensas, jardins devastados, árvores ressequidas, lixo, mendigos e gente esfarrapada, urinóis contra as paredes, fachadas escalavradas. Lisboa já não é cabeça de nada. O império morreu, os ministérios estão entregues a provincianos boçais que a invejam e detestam, os ricos dela se ausentaram, estabelecendo-se nas Cascais e Belouras. Lisboa morreu. Só não demos conta disso porque há por aí alguns necrófagos que querem acabar o trabalho por outros entusiasticamente iniciado.


Carlos Seixas: Allegro, do concerto para cravo e orquestra

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