19 maio 2007

Cidades assassinadas (3): Tóquio



Não foi apenas Wells a anunciar uma guerra devastadora e industrializada no decurso da qual, sem sequer ver o inimigo - desclassificado a abstracção tão visível como uma bactéria - máquinas voadoras reduziriam a pó e cinzas cidades e exterminariam populações inteiras. Em 1908, Giffard e Robida, na senda do género popularizado por Verne, haviam antevisto um cataclismo bélico de proporções apocalípticas entre os povos brancos e amarelos. Num trecho dessa novela de ficção histórica, um oficial francês afirmava: "juremos que o inimigo conhecerá pelas nossas mãos a devastação, o fogo, a ruína e a morte"(1). Parecia uma antevisão do terror que se abateria sobre o Japão três décadas depois. Edo, rebaptizada Tóquio em 1869, era, em 1945, uma das maiores cidades do planeta, com os seus sete milhões de habitantes desenvolvendo febril actividade nas indústrias e serviços de um império em declínio após quatro anos de guerra.Sofrera em 1923 um grande terremoto, mas depressa recuperara e apresentava todas as características de uma metrópole moderna, bem servida por uma inextrincável rede de comunicações, zonas residenciais e comerciais que em nada a distinguiam das capitais ocidentais. Possuia, também, grandes museus, salas de espectáculos, parques, santuários e estádios que rivalizariam com os de qualquer grande capital europeia. De súbito, em Fevereiro e Março de 45 caiu sobre a cidade uma tempestade de fogo que a reduziu a cinzas fumegantes: 300.000 mortos, 40 km2 destruídos (o equivalente a Nova Iorque) e o colapso de toda a vida organizada. Depois vieram a fome e as epidemias.Pode-se afirmar com toda a segurança que o velho Japão morreu nessa fornalha. A literatura de Ashihei Hino e Tatsuzō Ishikawa, autores glorificadores da guerra, deixou de ter razão perante tal hecatombe e a grande metrópole reergueu-se do calvário, tentado-o esquecer, mas para sempre ficou a cicatriz deixada pelo poder quase divino do homem - mais forte que a natureza - na destruição da sua própria obra.
(1) Cit. HERP, Jacques van. Panorama de la Science Fiction: les thèmes, les genres, les écoles, les problémes. Verviers: Gerard & Cº, 1973, p. 143


Sandan

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