18 maio 2007

Cidades assassinadas (2): Berlim


"Berlin ist eine Stadt, verdammt dazu, ewig zu werden, niemals zu sein”- Berlim está condenada a vir a ser sem nunca chegar a ser [uma grande cidade] (Karl Scheffler). Sobre a capital alemã, das cidades que mais seduzem o forasteiro, impende uma maldição. Teve, ao longo dos últimos séculos, todas as possibilidades de ser a capital (económica, comercial, tecnológica e política) da Europa, mas, no momento derradeiro, fracassou clamorosamente. Cidade cosmopolita, confluência do Leste o do Ocidente, multicultural, elegante, boémia, dissoluta, espartana, castrense, nela campearam o vaudeville, a opereta, o cabaret, o marginalismo cultural, o experimentalismo desvairado e provocador, mas também o mais feroz reaccionarismo anti-moderno, a mais ácida oposição pequeno-burguesa à mudança e, também, as mais extremadas soluções nascidas do totalitarismo e das religiões políticas do século, o nazismo e o comunismo. Ninguém diria que a cidade que Christopher Isherwood palmilhou em finais de 1920 - pletórica, perigosa e explosiva de alegria - atelier de Grosz, Brecht, Murnau e Fritz Lang, tão feérica como Chicago e Nova Iorque, riquíssima na diversidade de estratos e aspectos, capital do cinema europeu, mas também do jazz, do nudismo e da sexologia, sede das maiores empresas e bancos europeus, se transformasse, no interim de quinze anos, no maior cemitério plantado na superfície do planeta.
Quatro milhões de habitantes, servidos pelo conforto do mais moderno parque de maravilhas do século - metro, autocarros, escadas rolantes, piscinas aquecidas, ginásios, restaurantes e hotéis de sonho, superfícies comerciais de um gigantismo que ainda hoje se imporia, floristas, ourives, livrarias, editoras, bibliotecas e museus, salas de cinema, óperas, estúdios de cinema, jardins deslumbrantes, laboratórios, universidades, institutos - foram literalmente extirpados da civilização e atirados para os horrores da vida cavernícola. A capital alemã foi arrasada por sucessivos bombardeamentos aéreos (1943-44), antes de receber o golpe de misericórdia pelos 10.000 canhões soviéticos de Zukhov, em Março e Abril de 45. Diz-se ter perdido 70% das casas: Tiergarten, Charlottenburg, Schoneburg, Spandau e a área do Zoo desapareceram, pura e simplesmente; da área de Brandenburg e dos ministérios, bem como da Unter den Linden, nada sobreviveu. Lendo o Gotterdammerung de Saint Loup (aliás Marc Augier), Uma Mulher em Berlim (anónimo) ou o recente A Queda de Berlim, de Antony Beevor, percepciona-se timidamente o que terá sido a destruição da grande metrópole: 300.000 mortos, meio milhão de feridos, dois milhões de avacuados, 130.000 violadas, quebra de fornecimento de água, luz e gás, deasaparição de toda a actividade digna de nota. Os berlinenses, que nos anos 30 viviam 50 anos à frente dos outros europeus, regrediram mil anos.
A cidade partida em dois, ocupada e inculpada, nunca recuperaria. Ainda hoje, não obstante se haver transformado em estaleiro, ainda não é Berlim: é um fantasma daquilo que imagino ter sido. É uma pena pensar no destino de tantos milhões de pessoas comuns como nós, apanhadas no momento errado da história, mas também imaginar os tesouros que se perderam nos incêndios, nos saques e vandalismo desses anos de fogo. Berlim não é uma cidade: é uma tese à capacidade humana de fazer e desfazer sonhos.


Herr Lehman, was macht die Frau Gemahlin in Marienbad?

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