02 maio 2007

"Capitalismo selvagem" e "capital explorador"


Não, já não vivemos sob a férula dos industriais de Manchester, dessa Inglaterra negra da fuligem do carvão, das crianças descalças e andrajosas acorrentadas à servidão do tear, da vagoneta das minas ou submetidas à palmatória do patrão predador. Tudo isso são contos de Ricardo, Marx e Charles Dickens, mas escamoteiam uma grande conquista: o take off da industrialização permitiu que os servos se libertassem, ditou o fim das corporoações de ofícios que acorrentavam o trabalhador para a vida e erradicou a escravatura. A prosa [poética] e outros escritos socialistas fixaram um momento e não atentaram nas consequências dessa dolorosa passagem da economia fundada na terra ou na fabriqueta para o mercado global que o capitalismo partejou.


O capitalismo libertou da fome geracional milhões de homens, deu-lhes oportunidades de ascensão e mobilidade jamais vistas na história social, facultou-lhes dignidade, abriu-lhes as portas do ensino e premiou o mérito. Ao invés, tudo o que se lhe opõe favorece a dependência e a infantilização, a protecção e aquela ilusão aconchegante que caracterizava a relação entre senhores e servos. A nova servidão, estatista, proteccionista, interventiva e reguladora, produziu comunidades abúlicas, incapazes de arrostar desafios e impossibilitadas de concorrer. Ontem ouvi uma, duas, três e mais desabafos contra o "capitalismo selvagem", o "capital explorador" e outros rodriguinhos de um socialismo rançoso bem datado no espaço e no tempo. Em vez de aceitarem o modelo económico que foi o agente da libertação do trabalho, culpam-no pelos males colaterais. Em vez de exaltarem o papel decisivo que o capitalismo atribui aos agentes económicos - que são todos os homens - identificam essa libertação e o triunfo do engenho e da iniciativa como uma afronta.


O "capitalismo selvagem" não existe. O que existe, sim, é o ódio e o recalcamento de quem, não arriscando, recusando a liberdade que o capitalismo proporciona, gostaria de ver as sociedades submetidas ao industrialismo sem benefícios, uma espécie de feudalismo tecnologicamente avançado ao serviço do Estado, sem manteiga mas muitos canhões. O capitalismo é factor de libertação. Sem ele, aqueles que tanto o insultam, estariam atrelados a uma charrua ou aos maus tratos de um mestre de ofícios, tirânico e possessivo. O capitalismo trouxe a semana dos cinco dias de trabalho, as férias grandes e pequenas, as viagens, as pensões e seguros de trabalho, a casa própria, o acesso aos bens culturais e ao ócio, libertando os trabalhadores da luta pelo pão, que hoje se trava pela posse do computador, do automóvel, das férias no Brasil ou do colégio para os filhos. Nunca em momento algum da história tantos viveram tão bem e tão felizes. Até no chamado mundo subdesenvolvido, assim que as economias se abrem ao toque de Midas do capitalismo, surgem como tortulhos homens bem sucedidos, confiantes e empreendedores.


Schumpeter, no clássico Capitalismo, Socialismo e Democracia, escrito em 1942, antevia o fim do capitalismo, cujo comportamento lhe lembrava um processo de destruição criativa produzida de dentro de um sistema em permanente instabilidade e incapaz de se deter numa infrene dialéctica. Sendo um libelo, a obra identifica com precisão cirúrgica os inimigos do capitalismo: todos aqueles que receberam formação superior mas que, incapazes de triunfar, se dedicam à crítica ao capitalismo movidos pelo ressentimento. Ora, as mais das vezes, sindicalistas, líderes políticos e demais chefes de fila do anti-capitalismo transportam o azedume e a inveja dos fracassados. "Se eles detêm o capital, por que razão falhei ? ". Estão os socialistas para o modelo económico como os terroristas anarquistas de finais do século XIX: "se não consigo conquistar o mundo, pego-lhe fogo".

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