07 maio 2007

Capitalismo e flibusteirismo

O ataque veio pela noite. O galeão singrava para o porto de bojo carregado com porcelanas e sedas da China, biombos e espadas japonesas, tafetá, pimenta e canela da Índia. A tripulação - marujos escravos, libertos e povo chão de sangue limpo, alguns fidalgos oficiais da Coroa, mais cidadãos honrados e uma mão cheia de regulares. Para mal dos nossos pecados, trazia a bordo a invisível praga do escorbuto - esse salário que pagam os honestos marinheiros ao mercado mundial, à sobrevivência das artes e ofícios, às economias dos accionistas e ao bem-estar das nações; em suma, ninharias - quando foi varejado pela metralha de um brigue que navegava a coberto de bandeira reconhecida palas convenções do mar.


Um ataque selvático, sem prévio anúncio, bombardas despejando metralha, escopetes dirigidos ao timão e ao guarda-marinha que fazia a vigília do último turno da madrugada. Em segundos, a nave viu-se assaltada por uma chusma de arrenegados recrutados nos serralhos de Tunes, nos bazares de Muscate, nos quilombos do Brasil, nas costas da cafraria e nas margens da sociedade honrada de Goa, Malaca, Batávia e Pondicherry. A coisa durou o tempo bastante para que se vissem os porões saquedos - uma fiança exige por vezes dois meses de trabalho, quando roubá-la exige apenas uns segundos de atrevimento - e uns quantos soldados despedaçados pelos alfanges, navalhas sevilhanas, alabardas e setas envenenadas. O capitão, experimentado nestes encontros, mas reduzido pelo febrão, mandou virar subitamente a bombordo e assim quebraram-se as fateichas e as garras que acorrentavam o nobre galeão ao predador dos mares. Chegados a bom porto, foi recebida sarcástica missiva do pirata, que aliás não serve senhor, nem conhece Lei nem Pátria, não teme a Deus nem deve aos homens. Em Manila, o Conselho da Capitania Geral decidiu para os próximos dias resposta ao dragão dos mares.

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