31 maio 2007

AMI: ocidentalismo e preconceito anti-ocidental


A AMI (Assistência Médica Internacional) parece-me uma ONG carregada de boas-intenções e das poucas criadas em Portugal com verdadeira visibilidade e protagonismo fora de fronteiras. O seu presidente mobiliza vontades, desencanta meios e consegue levar a ajuda certa aos desvalidos de meio mundo. Neste particular, só pode receber o nosso aplauso.



Contudo, ouvindo-o, dir-se-ia preso daquela insuportável, injustificada e quase doentia crença da exigência de reparação moral que a extrema-esquerda anti-ocidental congeminou ao longo das últimas décadas. Para esses cavaleiros do resgate, a Europa e os EUA são os responsáveis pelos males do mundo, numa genealogia de culpa que remonta a Colombo, ao Gama e a todos os construtores do euro-mundo. Os europeus levaram os bacilos, as armas, as grilhetas e a violência às quatro partidas do mundo: escravizaram, mataram, depredaram e insultaram meia orbe e cabe-lhes, portanto, pagar, indemnizar, reparar, subsidiar as vítima reais ou imaginárias da mundialização iniciada em Quatrocentos.



É, sem tirar, a estória do Bom Selvagem e do Paraíso Perdido. Antes dos europeus, antes da expansão colonial, o mundo vivia no sétimo céu. Sociedades justas, vivendo na comunhão dos bens e na paz genésica, que desconheciam a violência e a arbitrariedade foram, de súbito, assaltadas por uma horda de criminosos de tez branca. A história da maldade e da infâmia é, por redundância, a história do Ocidente. A esta atitude de inculpação do Ocidente chamou com propriedade Avishai Margalit de "ocidentalismo" em conhecido ensaio disponível no mercado livreiro.



As teses ocidentalistas pretendem demonstrar que as matrizes e comportamentos contrários à harmonia, à paz, ao respeito pela liberdade e pelo ambiente foram enxertadas pelo "materialismo" e cupidez ocidentais em sociedades outrora "espirituais". O fundamentalismo islâmico, as guerras de agressão de países não-ocidentais a vizinhos, o terrorismo, os governos cleptocráticos, os atentados aos direitos humanos e os genocídios decorrem, assim, da alienação decorrente da colonização, pois eram fenómenos desconhecidos nas edénicas cidades solarianas que compunham a humanidade incorrupta. Para os "ocidentalistas", o nacionalismo, o racismo, a exclusão e a predicação da guerra, a fome, a corrupção que minam a África, a Ásia e a América do Sul são a factura da venda da alma dos outrora Bons Selvagens ao chamamento do Ocidente.



Remorso ou não, a verdade é que a cooperação desinteressada, a ajuda fraterna e esforçada, a preocupação pela sorte dos doentes e moribundos, as campanhas de erradicação de doenças, a preocupação pela escolarização, o fomento de iniciativas empresariais visando salvar da miséria milhões de excluídos dessas celestiais sociedades, a inculcação dos direitos das mulheres, a luta contra a escravatura e a prostituição infantil, as equipes de emergência enviadas em cenários atingidos por desastres naturais, a recuperação de crianças-soldados, as campanhas de desminagem; em suma, tudo o que de grande e nobre vai sendo feito neste vale de lágrimas, parte de iniciativas ocidentais. Contradição ? Não, pois a velha e sempre responsável Europa, ao globalizar-se, assumiu responsabilidades morais. É isso que não compreende o nobre presidente da AMI.

1 comentário:

Rogério Olivieri disse...

Uma excelente dissertação sobre o preconceito anti-ocidental, tão em voga nos dias de hoje. Parabéns!