02 abril 2007

Proibir e não proibir os inimigos da liberdade

Não preciso de proposições abstractas para saber o que é e o que não é a liberdade, como não preciso que me discorram sobre a essência do mal para saber onde ele vive e respira. Ouvia hoje um programeco na televisão - uma torrente de ódio, desse ódio estúpido encurralado na irracionalidade dos lugares comuns aclamados, com direito a Tordo e tudo - e o tema era, invariavelmente, a "questão do cartaz". Não sermos adeptos de soluções que repudiamos não quer dizer que sejamos cegos ao direito de outros pensarem como bem entendem e de fazerem a apologia daquilo que os mobiliza. Se cumprem a lei, se usam a palavra e as ideias e não as armas, a violência e a ameaça, estão no "negócio" como quaisquer outros.

A ideia de uma sociedade livre é incompatível com a censura, a segregação e sufocação das vozes contrárias. Se a democracia repousa sobre convicções, deve saber conviver com quem com ela não está e acordo, conquanto sejam acatadas as regras do jogo. Espanta-me, apenas, que gente que não tem autoridade alguma para falar em tolerância, que se situa num campo ideológico que prega subrepticia ou descaradamente a violência revolucionária, adepta envergonhada ou expressa de Trotsky, Estaline e outros monstros, tenha o displante de se colocar na vanguarda da liberdade.


Que eu saiba, nunca o DN, o Público ou qualquer outro orgão de comunicação social jamais se indignou pela distribuição de propaganda que fizesse a apologia do comunismo, do terrorismo de Estado e do negacionismo do gulague e jamais impediu o acesso de Louçã, Garcia Pereira, Carmelinda Pereira, Arnaldo Matos, "major" Tomé, Jerónimo de Sousa e Rosas à comunicação directa com o povo português. Portugal continua a viver refém de um tempo em que o CDS era perseguido nas ruas, apedrejado e ameaçado de morte pelos valentões que hoje se cobrem de grinaldas pudibundas de sacerdotizas da Liberdade. Vivi esse tempo e a perseguição invocava uma danação, em nome da qual todos os excessos eram desculpados: FASCISTAS ! Fascista foi o PS, fascista foi o PPD, fascista foi o CDS, fascista foi o PDC, este último democraticamente impedido de concorrer a eleições por uma douta entidade académica que dava pelo nome de Conselho daRevolução.


Enquanto nos situarmos neste redil de liberdade cercada pelo arame farpado enferrujado dos idos de 75, dependeremos sempre dos lobos enraivecidos do extremismo comunista a brincar em cães de guarda da democracia. Que a Procuradoria Geral da República abra um, dois, ou vinte processos, que o Tribunal Constitucional avalie, estude, discorra sobre o caso, mas, por favor, incluam no processo os programas, declarações e clarifiquem os intuitos de cinco, dez, cem movimentos, partidos e associações que são passíveis de ilegalização por induzirem à difusão de princípios, valores e convicções contrárias à democracia. Por este andar, qualquer dia vêm a minha casa rastrear as minhas estantes por nela constarem romances, novelas, gravuras, textos filosóficos, obras historiográficas, discos e estatuetas que constem de um mais que certo index prohibitorum riscado por um demente em busca de bruxas e demónios. Aliás, os caçadores de bruxas e demónios apareceram para dar emprego a liberticidas, precisamente antes do surgimento da "praga de bruxaria" que quase destruiu no século XVII tudo o que o Renascimento trouxera. Bruxas em Salém. Uma menina jornalista disse que viu o demónio. Empilhem a lenha, mandem vir os doutos teólogos, venham as confissões sob tortura, as denúncias e, sobretudo, venha o auto-de-fé. Este país envergonha-me.

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