13 abril 2007

Primis lettere: a vida é a aventura


Ontem entretive-me com uma viagem no tempo. Sem espaço para velhos papeis pintados com tinta, como lhes chamava Pessoa, mas sem coragem para os deitar ao lixo ou dá-los a um alfarrabista, resolvi empacotar os meus velhos livros de aventuras. Salgari, Mayer, Verne e demais ícones para sucessivas gerações aguardavam há anos o afago de uma mão, queixando-se silenciosamente pelo cruel abandono a que haviam sido condenados por tão ingrato amo. Eles foram tudo para mim, abriram-me o gosto por esse universo mudo que, transposto, me permitiu viajar, fantasiar, sonhar acordado e fugir à absurda mediocridade com que vamos arrastando a nossa vidinha. Neles, deitado de barriga para baixo no sofá, comendo uma sandwich de manteiga com toneladas de açúcar que o criado Augusto trazia cada meia hora, fui o Tigre de Mompracen, fui Nemo e Fumanchu, o Corsário Negro e Axel a caminho dos interstícios da Terra.


Depois deles, a vida tornou-se menos heróica, mesmo que alimentada pela "verdadeira literatura", também aventurosa, de Novalis (Heinrich von Ofterdingen), Conrad (Coração nas Trevas, The Rover), Joseph Roth (Die Flucht ohne Ende), a terrível Yourcenar, que me enfeitiçou por Roma, o crapuloso Malraux - traficante de obras de arte e falso soldado - o poseur Hemingway, essa terrível forças das profundidades que foi Ernst Jünger e outros tantos afamados, nomeados e galardoados. Mas, confesso, nunca nenhum deles teve impacto tão grande sobre a minha imaginação como o pobre Salgari, que viveu paredes-meias com a miséria, se enforcou por dívidas e nunca teve meia dúzia de cobres para sair da sua terra-prisão. Aos 9, 10 anos, tudo está por realizar, tudo está por aprender. Ontem afaguei-os mas não ousei abrir uma só página amarelecida. Tive medo da decepção. É por isso que gosto de mentiras - não dessas mentiras dos burlões e dos falsários - mas das mentiras piedosas sem as quais nos reduzimos à caricatura que somos.

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