18 abril 2007

Paris contra a Bretanha

Não há povo europeu mais racista, mais xenófobo, mais cioso do seu particularismo - que incha ao ponto de se convencer ter recebido uma missão do Altíssimo para o universalizar - que o francês: aquele excesso de auto-contemplação narcisista, aquela ânsia de vedetismo em bicos de pés, aquela insuportável afectação indispõem-me. Em França há dois tipos de mulheres: os homens e as mulheres, pelo que a psicologia dos franceses vive num equilíbrio instável de depressão e excitação barulhenta que não me seduz nem encanta. Num país que vive em eterna crispação - na expectativa da nova colecção de Cacharel e do último grito do gel nettoyant - a política é um estado de alma. Falar em política envolve três palavrinhas santificados e três palavrões: culture (por favor, lembrar o celebérrimo bouillon de culture) , État e tolerance; americanisme, globalisation e barbarie.


A vida pública francesa é pobre, rica em aspectos e parca em perspectivas, porquanto uniformizada, ritualizada e totalitária. Feita do Estado para a sociedade, a actividade dos artistas em palco confunde a classe dirigente: saídos das mesmas retortas universitárias e do funcionalismo público, os políticos são, antes de mais, mandarins da República, homens interessados em manter o exclusivo das mordomias pagas pelos contribuintes - o despesismo é ciclópico, a noção de poupança estranha a essas criaturas - e em manter um sistema que fechou horizontes, descapitalizou e transformou l'hexagone em curiosidade antropológica num mundo em trepidante mudança. Para quem tenha seguido a campanha eleitoral em curso, a arrumação dicotómica que se apresenta não é o clássico entrechocar entre a esquerda e a direita. O medo dos analistas e dos sondagistas - esses magos da contemporaneidade - é o de no próximo domingo os franceses votarem contra o Estado, mas, sobretudo, contra o estado a que chegou o Estado francês. Ora, lendo e ouvindo os candidatos, surge-me como argumento de toda a evidência que só há dois que, com propriedade, exprimem os direitos da cidadania face ao Estado: Sarkozy e Le Pen.


Sarkozy vem da tradição da direita orleanista e liberal: quer retirar a França do atoleiro isolacionista, anglicizando-a na atitude, infundir-lhe nova vitalidade concorrencial, com uma vida política livre da tutela subsidiarismo, uma classe política meritocrática com provas dadas na actividade privada e, sobretudo, compatibilizar patriotismo com atlantismo, reintegrando o país no bloco ocidental dirigido pelos EUA. Sabe Sarkozy que a França não será nada na política internacional sem a restauração de boas relações com os anglo-saxónicos. O apoio que o país concedeu a todos os tiranos anti-ocidentais - esse investimento suicida que a varreu da África Ocidental, que a pôs fora do Médio Oriente e quase a erradicou do Norte de África - passa pela revitalização da NATO e da UEO, bem como pela participação francesa em forças multinacionais dirigidas pelos EUA. No plano interno, Sarkozy sabe que o grande problema social com que se debatem os franceses é a questão da imigração. Sarkozy não é anti-imigração; Sarkozy é anti-invasão e ferozmente contrário ao melting pot. A França, para Sarkozy, é Paris, a uniformizadora, a criadora das instituições, dos códigos e demais leis que fazem a França.


Le Pen é tributário da tradição contra-revolucionária, regionalista e corporativa, inscrevendo igualmente o nacionalismo identitário e anti-cosmopolita de finais de Oitocentos. É um homem que viveu sempre fora da classe dirigente, contestatário e líder na tradição de Jacques Bonhomme, Rochejacquelein e até de Boulanger e Poujade. O medo pela perda da identidade, o descontrolo da imigração, a não-assimilação das comunidades migrantes, agora declaradamente presas do anti-ocidentalismo do Islão agressivo, somadas às experiências do candidato quando jovem, oficial na guerra pela preservação da Argélia Francesa, encontram eco crescente na sociedade francesa.


Ao contrário dos fazedores de opinião, julgo estar a preparar-se uma grande surpresa para domingo. Tenho a vaga impressão que à segunda volta poderão passar Sarkozy e Le Pen, se entretanto a candidata socialista não conseguir demonstrar que é algo mais que aquilo que o regime consegue oferecer aos franceses. Temo que, no domingo, a vis feminina do povo francês se fará ouvir: gritos, lágrimas, unhadas e partir de pratos. Prepara-se um novo choque, como o que se deu aquando do NÃO à Constituição Europeia.

Sem comentários: