04 abril 2007

Os Demóstenes que não temos


O português nunca foi uma língua pródiga em discursos. Se os temos, não cumprem os requisitos pedidos pelo Estagirita: não são lógicos, não são dialécticos, não são retóricos nem poéticos. Pondo de parte as grandes excepções - o Padre António, os irmãos Passos, António José de Almeida, Leonardo Coimbra e Rolão Preto - que conseguiam peças capazes de arrancar os mortos das campas, os nossos homens públicos são incapazes de reunir quatro palavras de improviso, muito menos arrancar uma saraivada de aplausos que não sejam comprados.



Confesso que gosto de uma boa discursata mão na anca, gesto teatral, mãos nervosas, voz altiva e olhar desafiante. As pessoas rendem-se, deixam-se prender e vê-se-lhes o brilho nos olhos por meia dúzia de banalidades bem ditas. Ao invés, entranha-se-lhes um cansaço de pés pesados quando deparam com um discurso escrito, correcto e carregado de erudição. É como no teatro: ninguém aceita um actor que carregue o texto. Soa a falso. É como numa missa lida; os circunstantes passam a olhar para a roupa dos outros, para a criancinha que guincha, o pó que não foi limpo, o pássaro que se perdeu e esvoaça dentro do templo.



Ninguém nasce com dotes de orador, mas exige-se que os homens públicos treinem o mínimo compatível com o ofício. Compreendo que Salazar não gostasse de improvisar. Não tinha voz e era um homem de gabinete. Porém, num regime parlamentar fundado na angariação de votos, aos políticos pede-se essa competência. Olhando para os últimos trinta e tal anos, fica-nos a sensação de vazio absoluto. Se pretendermos fazer uma antologia de discursos produzidos no actual regime, não ficou nada. De Soares restou o "olhe que não, olhe que não", de Sá Carneiro nada, de Mota Pinto idem, de Balsemão idem idem, de Cavaco um "raramente me engano", fanado a Mussolini, de Guterres zero, de Barroso o "discurso da tanga", de Santana "o discurso da incubadora" .



Um dia, em Paris, fui assistir a um discurso de Le Pen. O homem não diz nada que o homem comum não saiba, mas fala primorosamente: tem graça, conta anedotas bombásticas, passeia-se pelo palco com aqueles fatos garridos technicolor e cabelo pintado de louro, interpela retoricamente a assistência, estabelece cumplicidade com o público e, curioso, raramente tem tiradas, falando normalmente como se estivesse sentado connosco à mesa do café. É o segredo Le Pen: fazer-se passar por um amigalhaço com quem se priva e se fala sem esmero e sem pose. Aquele público rende-se perante o "tio" Jean-Marie, há uivos, assobios, palmas, gargalhadas e, no fim, um verdadeiro furor quando o entertainer dirige a multidão no entoar da marselhesa.



Julgo que Le Pen poderia vir a Portugal a convite da Assembleia da República para aqui ministrar um curso de comunicação. Muito aprenderia Marques Mendes, que fala como o boneco do ventríloquo, enriquecido ficaria também Sócrates, que grita, berra e barafusta sem razão aparente, Louçã que nunca se desligou daquele ar de pregador de seita adventista, Ribeiro e Castro que fala para os seus pulmões e o camarigueiro Sousesco que é um campeão da não-comunicação. Moral da história: os políticos, se não sabem falar, se têm medo das palavras, mudem de ramo. Ontem, pelo telejornal, ouvi atentamente Sarkozy. Ali estava mais um segredo de comunicação. Com aquele ar de valentão de briga na paragem do autocarro, a língua seca, a frase curta e incisiva, cumpre a expectativa do homem comum. Não há circo, ópera ou comédie française, como em Le Pen; há o chefe da esquadra da polícia a quem nos vamos queixar de uma carteira roubada, de um vizinho barulhento ou de um traficante que temos em frente da porta. As pessoas adoram actores e respeitam os autoritários. Por cá não temos nem actores nem homens de autoridade, só uns chatos cujas deixas já conhecemos de cor.

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