26 Abril 2007

Os cravos morreram: visita acidental ao Smithsonian


Ao contrário do previsto, ontem não choveu, pelo que resolvi dar umas braçadas na piscina. Pelas 15 horas, iniciei a descida da Av.ª da Liberdade e assisti aos preparativos dessa "grande caminhada" a que aludiriam os abracadabrantes telejornais da noite. Pura mentira. No desfile não terão participado muitos figurantes, se bem que espaçados e criando a ilusão de uma mole inexistente. Todos velhíssimos, octogenários, nonagenários e outros longevos milagres da moderna medicina. Havia jovens com ar de netos e bisnetos para ali empurrados pelo zelo apostólico de anciãos.
Primeira impressão: estava bem estampado o fracasso do Serviço Nacional de Saúde. Se houvesse possibilidade de abrir aquelas bocas, surpreender-nos-ia não haver dentaduras da Caixa. A soma dos dentes não ultrapassaria os vinte milhares, o que, quatro por manifestante, daria cinco mil presentes. Dei comigo a arrumar socialmente aquela gente: pobres roçando a indigência, décadas de maus tratos alimentares estampados nos rostos, uma pelintrice capaz de fazer chorar as pedras da calçada. Atentei nos cartazes: frases incompreensíveis, de outros tempos, que fazem sorrir de espanto e ternura pela ignorância daquela pobre gente que ainda não se deu conta que passaram quase 40 anos (sim, quarenta anos) e que o mundo mudou. Aquele imaginário é contemporâneo do papel químico, da tele-escola, dos autocarros de dois andares, das mercearias Vale do Rio e das pastilhas Gorila: "produzir para o povo", "Condição militar", "não à globalização", "contra o capitalismo", "pelo socialismo" e demais desabafos emprestavam ao conjunto ares de cortejo histórico. Chegado ao Rossio, com o coração feito num oito, detive-me por breves instantes. A praça estava a um terço. Comia-se pipocas e queijadas de Sintra, vendiam-se livros em bancadas: "O Socialismo Científico", "Discursos de Lenine", "A Revolução Cubana", "A Morte de Catarina Eufémia: a grande dúvida de uma grande dama" - sim, o título existe - "A URSS em fotografias" e outra ganga que só se vê nos alfarrabistas das Escadinhas do Duque. O melhor estava ainda para chegar. No estrado badalavam uns menestréis, rotundos de farripas engelhadas, o cancioneiro da gaivota voava, da paz-pão- educação- saúde- habitação e do eles não sabem nem sonham, que já ouvi umas vinte e duas mil, trezentas e trinta e seis vezes do José Freire. De súbito, um discurso. Não o ouvia, pois, com o meu autismo limito-me seleccionar palavras soltas: "trabalhadores (...) trabalho (...) resistência (...) luta (...) fascismo (...) guerra colonial (...) relações de produção (...) exploração (...) mais-valias (...) suor (...) companheiras (...) camadas sociais (...) cravos (...) conquistas (...) solidário (...) ... O homem lia o papelame sem uma pinga de entusiamo. Ao meu lado, antiguidades sentavam-se, comiam tremoços, cobriam-se de auto-colantes. Um dormitava como uma salamandra, outra tirava da sacola de plástico uma sandwich de linguiça, uma bisneta com um tédio contagiante riscava o chão com um pau de giz. Saí dali convencido que a coisa morreu. Só que eles não sabem.

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