16 abril 2007

Não me chamo Dr. Miguel, o meu nome é Miguel


Não sou "doutor". Possuo como habilitações literárias uma licenciatura, uma especialização, uma pós-graduação e um mestrado. As minhas habilitações escolares possibilitam-me o exercício de funções profissionais e não me conferem qualquer privilégio civil, pelo que debalde desenvolvo tremenda pedagogia junto daqueles que comigo trabalham para que não me tratem por "doutor". Como fui militar durante anos, inculquei a estética e a ética da hierarquia: não pretender ser o que não se é, ser-se com garbo aquilo que se é. Infelizmente, o título académico mesmeriza os portugueses. Aqueles que o detêm sentem-se despidos sem ele; aqueles que o não têm desculpam-se pela nudez do título. Uns barricam-se no diploma por complexo de inferioridade compensada; os outros desculpam-se pela tremenda falta de não o possuir. É neste jogo infantil de uma putativa superioridade e de uma suposta inferioridade social que balanceia a vida social portuguesa, ainda ancorada a uma visão Ancien Régime feita de preconceitos de estratificação cerrada, mobilidade limitada, estamentos e ordens, honra e status.


Digo, com a maior franqueza, que na Universidade nada aprendi. Salvo honrosas excepções, tive péssimos professores, péssimos programas curriculares, passei por execráveis ordálias em trabalhos, trabalhinhos e trabalhecos cuja finalidade ainda não consegui lobrigar, ficando-me para sempre uma incómoda sensação de vazio, que para os homens da Psicologia Social constitui o principal ingrediente para a vivência do absurdo. Nunca fui visto em bençãos e queimas de fitas, pândegas e grupos. Entrei e saí com a mesma pressa de me ver livre daquelas paredes e salas opressivas, do ideologismo e do preconceito que ali respirei, de colegas e coleguinhas que nada me diziam. Aprendi, sim, com os livros, com amigos mais instruídos e inteligentes mas, sobretudo, comigo mesmo. A Universidade faculta o método, é certo, mas não abre o espírito para além de umas flexões e de uns abdominais mentais que condicionam, direccionam e tratam de inculcar formas e preceitos mitodológicos em nome dos quais se praticam as maiores barbaridades sobre a espontaneidade, a curiosidade inerente ao ser pensante e a coetânea capacidade de juízo crítico. A Universidade, tal como ainda a concebemos, é um viveiro de doutorismo funcional: os burros entram burros e transitam burros ajaezados de doutores.


Prefiro um bom criado de servir - compenetrado, eficiente, célere e voluntarioso - a um criado de servir doutor. Ora, o que mais produz a nossa cara Universidade são essas criadinhas atrevidas, arrogantes e ignaras que enxameiam com protagonismo liliputiano ministérios, fundações, câmaras, partidos, jornais e televisões com o seu vedetismo fruste, a sua mediocridade impante e uma total ausência de humildade. Estes "doutores" nunca leram um livro, jamais franquearam uma biblioteca, raramente entraram numa livraria ou num museu, não se lhes conhecem preocupações e ânsias cerebrais, vivem derrancados nas mesmas crenças e gostos do povo-chão - amiúde grosseiros, brutais e supersticiosos - e constituem, com a sua lei de bronze, o maior factor de inibição sobre o conjunto da sociedade. Se, de todo, não gostaria que me tratassem por sr. engenheiro, por favor, não me tratem dor "doutor".

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