28 abril 2007

Neo-comunismo, neo-fascismo e "neo-liberalismo"


Comunismo, fascismo e liberalismo são simultaneamente teorias, doutrinas, programas e atitudes, deles decorrendo assentamentos distintos em dimensões tão diversas como a concepção do homem, da sociedade, do Estado, da acção política, da cultura e do comportamento individual.


Se o comunismo e o fascismo são holísticos, deduzindo o papel dos indivíduos a partir de estruturas que os precedem e sem as quais este só existe enquanto abstracção, o Liberalismo coloca o problema da liberdade como fundamento a partir do qual se justificam as estruturas políticas, institucionais e legais, se consagra a propriedade de si mesmo e a propriedade dos bens e seu usufruto, bem como a capacidade do homem em construir e revogar cultura, aqui entendida como o que este pensa, institui e frui: as leis, as instituições, as práticas sociais, os valores. Assim, o Liberalismo coloca como condição para o pleno entendimento da vida social o papel determinante do indivíduo. Alguma leitura apressada ferida de preconceito totalitário contra o Liberalismo tende a confundir o Liberalismo com o egoísmo. Se o atomismo é uma das características do Liberalismo, este só se pode pensar na sua realização comunitária; ou não são principais pilares do Liberalismo precisamente aqueles que exaltam a acção colectiva feita de actores individuais responsáveis, livres e auto-determinados interagindo com outros indivíduos ? A lembrar, os direitos humanos, os direitos civis universalizados e a economia de mercado.


O comunismo e o fascismo foram, a seu tempo, respostas ao liberalismo. Combateram-no com argumentos distintos mas convergentes, acabando ambos por realizar utopias políticas - diria distopias - que falharam clamorosamente. Ambos - comunismo e fascismo - tentaram reduzir o homem a produtor ou soldado, mas, contrariando a natureza humana, não conseguiram mais que transformar as sociedades onde se impuseram em caricaturas de felicidade colectiva.


Lia há tempos o já clássico Liberalismo, de Pierre Bourdieu e surpreendi-me com a insistência com que o antigo assistente de Aron lavrava o epitáfio do pensamento liberal, para ele irremediavelmente suplantado pela história. Sim, mas entretanto, caiu o Muro de Berlim e por todos os azimutes triunfaram as ideias liberais de democracia e capitalismo. O que Bourdieu estimava moribundo triunfou. Talvez estivesse certo num aspecto: o liberalismos dos anos 50, 60 e 70 estava demasiado inquinado pelo socialismo (leia-se social democracia) para não ser mais entendido. O proteccionismo social, o proteccionismo económico, o Estado de serviços e a sociedade de "direitos sociais" acabaram por dar ao socialismo uma oportunidade que não tivera nos regimes de "socialismo real" do Leste, mas o resultado foi idêntico: embotamento da iniciativa, restrição das liberdades, engordamento do Estado, da burocracia e consequentes maleitas: corrupção, favoritismo, despesismo e empobrecimento das sociedades em benefício do Estado.


Graças ao neo-Liberalismo - que não é neo-coisa-alguma, mas O Liberalismo - restaurou-se uma família ideológica na sua primitiva pureza. Não deixa de ser contraditório o facto daqueles que mais encarniçadamente se bateram por modelos de sociedade onde nunca tiveram lugar preocupações pela igualdade dos cidadãos, mas antes se apresentaram com claros programas instituidores da servidão moderna - o comunismo e o fascismo - sejam hoje aqueles que mais reivindicam os direitos colectivos, a justiça social e a igualdade de oportunidades económicas e civis para todos. O fascismo, pura e smplesmente, aboliu a representação política e aprisionou a representação social a uma falsidade oca e regressiva a que deu o medieval nome do Corporativismo, coisa que não funcionou em parte alguma. O comunismo, por seu turno, foi uma regressão histórica sem precedentes: aboliu a lei, a separação de poderes, aboliu a propriedade e retirou a cidadania aos indivíduos.


Compreende-se, assim, que neo-comunistas e neo-fascistas nada tenham a oferecer para além de fórmulas derivadas do liberalismo que tanto odeiam. São "neo" com toda a propriedade: aceitam todas as estruturas fundamentais do Liberalismo, aceitam o pluralismo, a livre expressão das ideias e programas, a representação política feita com partidos e parlamentos e até o direito à propriedade. Contentam-se em salpicar o liberalismo com uns pós de proteccionismo e dirigismo - atraindo incautos, mas, sobretudo, os mais falhos de iniciativa e os menos aptos para o livre jogo social - mas são, ambos, liberais.


No fundo, neo-fascistas e neo-comunistas inculcaram o princípio fundamental de um tipo de sociedade que tanto abominam. Ambos sabem que os ocidentais jamais abdicarão daquilo que é, com mais ou menos defeitos, o melhor dos regimes possíveis.Por alguma razão, liberty e freedom entendem-se de forma diferente na língua inglesa. Se os liberais preferem a liberty, os seus envergonhados adversários limitam-se a reclamar freedom. Mistérios linguísticos, clarezas semânticas !


Anne Shelton: I'll be Seing You (1943)

1 comentário:

maleico disse...

Você diz que o comunismo,o qual eu também não defendo, e o fascismo, que é pior ainda, transformam o homem em um soldado ou coisa do tipo.
Mas esqueceu que o liberalismo transforma o homem e a natureza em um numero em uma prancheta de um diretor de corporação.
O neo-liberalismo também fecha os olhos para seus defeitos, assim como todos os outros sistemas.