17 abril 2007

A Maison Close




Pois, eu lavei copos nas infectas cozinhas de uma dessas "casas de alterne" e posso atestar que ali entra de tudo: de políticos e sindicalistas à caça de um diploma, padres, pastores, maçons e outros aficcionados de artes mágicas, filhos, filhas, mulheres e irmãos de reitores com doutoramentos-vão-de-escada, administradores saídos da enxada, tudo num amontoado de mediocridade a brincar ao sério, cenho carregado e apetite voraz pelo dinheiro fácil. As "privadas" são um catálogo do insuperável engenho dos portugueses para as pequenas aldrabices e para a contrafacção de feira e ali só se presta devoção a um mandamento: enriquecei rapidamente antes que chegue o fiscal.


A atmosfera tresanda a paródia não sofisticada: os dirigentes são cópias mal riscadas dos reitores das "universidades a sério", os "doutores" são meros assistentes na pública, os "professores" são licenciados a brincar com vestes da pragmática medieval, os conselhos científicos acabados de chegar da universidade de Badajoz, com um doutoramento de grau 4 às costas e as provas académicas verdadeiros embustes. A coisa teria a sua graça se não envolvesse tanto dinheiro público - as "unidades de investigação científica" subsidiadas a fundo perdido pelo Estado e pelos fundos comunitários - os regimes especiais de isenção desencantados ao abrigo desse bezerro de ouro que dá pelo nome de "interesse público"; as negociatas imobiliárias envolvendo autarcas; o vergonhoso tráfico de influências que já conseguiu firmar poderosas 5ª's colunas no Ministério do Ensino Superior com vista ao reconhecimento de cursos de duvidosa sustentabilidade científica; as relações proibidas com diplomatas e outros sátrapas de países africanos com vista a investimentos fictícios nos infernos tropicais.


Muitos colaboram afanosamente nestas Aldeias de Potenkim, fachadas de papelão e estuque e bancos sem autorização nas despensas. Importa saber quem na Assembleia da República, nas Câmaras Municipais, nos orgãos de comunicação social, nos sindicatos e nos ministérios tutelares desenvolve actividade docente nesses cortiços, quem prepara ou já defendeu teses de doutoramento e mestrado nessas amibas, importa listar todos antigos ministros, secretários-de-Estado, directores gerais e confrontá-los com o presente quadro docente dessas colmeias. O monstro cresceu e tornou-se incontrolável, cobriu de vergonha o ensino superior português, inflaccionou a irresponsabilidade, o favoritismo e o atrevimento criminosos, pelo que, se ainda existe essa coisa que dá pelo nome de Estado, há que lançar mãos ao trabalho.


Assisti ao programa da D.ª Fátima Campos Ferreira. A defesa da virgindade das "privadas" a que consagrou todos os neurónios, bem pouco convincente, coitada da Fátima, tem uma explicação: a D.ª Fátima Campos Ferreira é professora numa universidade ali para os lados do Museu da Cidade. Alguém me diz que essa entrada no universo universitário foi a causa daquele arregalamento de olhos e daquela segurança pateta que investe em todas as palavras. Ontem, estava deslumbrada perante tanto "doutor" e tanto professor". Estava no seu mundo.

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